Um novo sertão de Marli Walker

Dayanne Dallicani

Colunista Eduardo Mahon

É forte o balacobaco da literatura produzida em Mato Grosso. Tanto que lançamentos próximos já têm reserva de venda, um fato inédito por essas bandas. A escritora Marli Walker, depois de ter a obra selecionada pelo Ministério de Educação para aplicação em todo o território nacional, vai lançar “Coração Madeira” que é seu primeiro romance. Vamos festejar, claro. Escrever um romance é um grande feito porque exige um fôlego maior do que as outras formas de prosa. Além do mais, na centenária trajetória literária do nosso sertão, foram raríssimas as mulheres que produziram esse feito. Finalmente, uma nota digna de atenção – o livro é ambientado em Mato Grosso, mas não “aquele Mato Grosso” idílico que todos conhecemos.

A natureza de Marli Walker não é protagonista. A paisagem da escritora, ainda que se integre a um referencial comum da região, afasta-se do romantismo costumeiro. Não se trata do prateado luar do sertão, das frondosas mangueiras, das brincadeiras de quintal e todo o conjunto memorialístico que compôs as imagens de uma terra pródiga embora distante. O romance de Walker trata da mata que cai, das cidades que surgem, dos dramas que permeiam esse sertanismo contemporâneo. É uma desilusão do imagético mato-grossense que é pano de fundo para a desilusão da personagem principal, uma mulher desambientada da origem que sofre tanto quanto a floresta derrubada.

No lugar das árvores, surgem cidades pujantes e injustas. No lugar da mulher subjugada por um mundo masculino e brutalizante, surge outra forte e emancipada. As dimensões do drama humano são mensuradas com uma régua das mais interessantes porque é no tamanho de insetos que se revela o que é mais rústico, mais isolado, menos cognoscível

Eduardo Mahon

No vazio existencial do romance de Walker, evidentemente que há substituições e compensações no texto. No lugar das árvores, surgem cidades pujantes e injustas. No lugar da mulher subjugada por um mundo masculino e brutalizante, surge outra forte e emancipada. As dimensões do drama humano são mensuradas com uma régua das mais interessantes porque é no tamanho de insetos que se revela o que é mais rústico, mais isolado, menos cognoscível. O duplo isolamento da personagem é tão assustador quanto os bichos com os quais é obrigada a conviver. Essa escala sertaneja merece detida reflexão para que possamos entender o que a percepção da autora quer nos sugerir.

Moscas, sapos, grilos, besouros, o ronco da motosserra integram o diário solitário da protagonista que vai desbravando a si mesma, realocando-se sozinha num outro universo, o intelectual. Talvez o desafio seja ainda maior porque, nesse meio, há mais desafios e selvagerias do que o próprio sertão. Não posso deixar de recordar o drama das “desquitadas”, um profundo estigma impingido nas mulheres brasileiras do século XX. A protagonista de Walker nem cumpre o clichê da fiel companheira que é a coadjuvante dos desbravadores nem se traveste com características masculinizantes para sobreviver às agruras do sertão, outro lugar-comum massificado na literatura brasileira. Continua sendo mulher que busca uma identidade independente, um espaço próprio, uma voz que consiga expressar o que é.

Não recomendo “Coração Madeira” para ser estudado. Não suporto o didatismo prescritivo com que tratam a literatura. Claro que o romance de Walker pode ser lido à luz da tradição da literatura mato-grossense, da ótica feminina, da contemporaneidade autobiográfica e do ponto de vista da geografia a fim de revelar a ocorrência ou não de padrões regionalizantes. Mas, antes de toda essa carcaça teórica absolutamente dispensável ao leitor, é essencial o prazer. Por que ler? Porque é bem escrito. Esse é o mérito de um bom livro. Saber narrar, fazer os recortes adequados, encontrar uma voz condutora, um cenário, um tempo e, claro, as personagens que interajam de acordo com um enredo interessante – é o talento de Marli Walker, agora se apresentando como romancista. Não é um livro qualquer. É um marco.

Eduardo Mahon é advogado, escritor e escreve exclusivamente neste espaço todo sábado. E-mail: edu.mahon@terra.com.br

Fonte: RDnews

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