Russomanno diz não ser racista usando como evidência alusão a prática racista

Em sabatina da Folha em parceria com o UOL desta sexta (6), o postulante a prefeito de São Paulo, Celso Russomanno (Republicanos), alegou não ser racista por ter sido criado por mãe de leite negra —figura historicamente associada à violência e ao racismo.

Russomanno não ser questionado sobre de que forma uma coisa tem relação com outra quando o assunto eram suas críticas vazias e estapafúrdias a uma homenagem ao mês da consciência negra é um sinal de que as redações precisam prestar mais atenção quando o assunto é racismo.

No Brasil, a figura da ama de leite está diretamente ligada às escravas obrigadas a deixar de alimentar os seus próprios filhos para alimentar os filhos brancos dos seus senhores, lê-se donos.

A relação de violência, que levou à morte muitos recém-nascidos negros mal alimentados em prol da vida de brancos, foi mascarada na tentativa de mitigar a imagem negativa da escravidão. Usaram-se, inclusive, fotos das amas com roupas emprestadas ao lado dos seus filhos de criação para mostrar suposto respeito a essa função. Um estratagema que tinha como objetivo, também, divulgar os serviços da escrava ama de leite para futuro aluguel, como bem explicita Robson Roberto Silva, historiador e professor colaborador da Universidade Estadual do Paraná em seu artigo “A Presença das Amas-de-leite na Amamentação das Crianças Brancas na Cidade de São Paulo no Século 20”.

Em outro excelente artigo, este publicado no Nexo Jornal, a historiadora Lilia Schwarcz demonstra como até mesmo o artifício do desenvolvimento de uma relação maternal entre criança branca e ama de leite negra foi utilizado para sustentar um ponto positivo da escravidão.

Não há nada de positivo na mais remota possibilidade, quem dirá lembrança, de uma mulher negra sendo obrigada a amamentar uma criança branca.

Não obstante, dirão que muitas das escravas libertas (libertas, não livres) vendiam seu leite como forma de conseguir algum dinheiro. Ora, não seria difícil compreender que a falta de quaisquer oportunidades seriam decisivas para que uma mulher marginalizada social e economicamente optasse por vender o seu leite.

Não incomoda Russomanno ter sido criado por ama de leite, não é esse o ponto. Incomoda sim, e deveria ter incomodado os entrevistadores, que o candidato tenha usado este artifício para justificar sua crítica absurda a homenagem realizada pela prefeitura de São Paulo com óbvio interesse eleitoreiro de mostrar-se proativo para os apoiadores do presidente Jair Bolsonaro que julgam ser absurda a constatação da existência de racismo estrutural no Brasil.

O próprio Russomanno admite que ao fazer a crítica não sabia que se tratava de uma ação da prefeitura. Talvez soubesse se tivesse checado junto ao executivo municipal ao qual se candidatou em vez de produzir fake news sobre ter havido vandalismo. Todo o caso mostra que Russomanno se preocupa mais em falar sobre o que não sabe do que procurar saber.

Por fim, mas não menos importante, o episódio mostra que o racismo estrutural é tão perverso que mesmo aqueles que deveriam perceber o absurdo de tal fala pularam ao próximo tópico, talvez satisfeitos com a resposta sabendo que dali pouco mais sairia, talvez por causa do tempo restrito que avançava. Fato é que o racismo da fala passou batido por todos e todos, no caso, eram brancos.

Fonte: Folha de São Paulo – notícias

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