Ódio, jornalismo e linguagem

A questão do ódio por motivação política voltou à ordem do dia devido à agressiva reação ao anúncio feito pelo presidente de que seu teste do coronavírus deu positivo, estando uma coluna de Hélio Schwartsman, desta Folha, entre as reações mais polêmicas.

O combate político perpassado pela agressividade no discurso funciona como catarse para alguns, mas pode induzir outros a algo incontrolável.

Cada um de nós que tem a honra de emitir opiniões em veículos de grande circulação ou tem em torno de si seguidores atentos deveria se abster de insuflar ainda mais os ânimos de um povo já tão exaltado.

O leitor espera de nós informação, análise, opinião ponderada, e não o espasmo de emoções mal trabalhadas perpassadas por um amálgama de ideologias confusas disfarçadas sob o manto de tal ou qual filosofia.

Não há que se comparar o ofício do jornalista com o do filósofo, mas não há também que se confundir o leitor com o uso sofismático da filosofia como pano de fundo para emissão de desejos pessoais eivados de preconceito político.

Todos somos responsáveis pelo restabelecimento do caráter elevado do discurso e do decoro no uso público da razão. Quer nos refiramos ao presidente, ao inimigo do presidente, ao colega que contradiz nossas ideias ou àquele que as corrobora, compete-nos o sóbrio linguajar.

O leitor é merecedor do nosso respeito e dos nossos melhores esforços de expressividade, no zelo que dedicamos a cada frase apurada no labor linguístico e peneirada pela sobriedade do intelecto ocupado em contribuir para o progresso real, e não para o recrudescimento social em beligerâncias sem fim.

Não desejo a morte do presidente. Não politizei a minha alma a ponto de esquecer os preceitos cristãos que sustentam minha ética (não consequencialista). Mas, caso desejasse, por ética profissional me absteria de expressar tão rude desejo. Não que expressá-lo seja crime. É que, conforme o apóstolo Paulo, “Tudo me é permitido, mas nem tudo convêm”.

Fonte: Folha de Sâo Paulo – Poder

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