O efeito Halo: julgamos mal até mesmo os hospitais

O efeito halo, um viés do comportamento humano, veio pela primeira vez à ciência em 1920, através de um artigo assinado pelo psicólogo Edward Thorndike. O belo nome chegava às publicações científicas em nítida referência ao aro luminoso habitualmente encontrado sobre a cabeça dos santos retratados em pinturas medievais. O adorno destaca o indivíduo representado sob seu brilho, a encarnação da piedade, bondade, devoção e da disposição para realizar sacrifícios sublimes.

Thorndike usou uma metáfora em alusão às auréolas santificadas para demonstrar uma forma do julgar. Basta notar o halo para saber que há um santo; basta encontrar uma única característica positiva em alguém para lhe atribuir outras qualidades virtuosas acopladas em elos. Essas não precisam ter correlação e dispensam confirmações para serem confiáveis. A bela característica é como um halo, que despeja virtudes e previne defeitos.

Cinquenta anos após o texto de Thorndike, um conjunto de psicólogos demonstrou como nós julgamos os considerados mais belos, influenciados pelo efeito halo. Tendemos a imaginar que os bonitos são mais bem sucedidos no casamento e no trabalho, que são mais saudáveis e mais inteligentes.

Até parece o jargão “julgar o livro pela capa”. Porém o efeito halo é mais complexo, como outro psicólogo, Joseph Forgas, demonstrou após um experimento.

Ele entregou a voluntários o mesmo exemplo de um texto filosófico. Mas Forgas dividiu os leitores em dois grupos com mesmo número de pessoas. Uma fotografia de um homem grisalho, de óculos, sobriamente vestido (o estereótipo do intelectual) foi apresentada como a imagem do autor do trecho para um dos grupos. A outra metade de participantes foi induzida a acreditar que uma mulher jovem, fotografada vestida casualmente, seria a autora.

A aparência física do suposto autor criou o efeito halo: a obra filosófica teve mais avaliações positivas no grupo em que os indivíduos pensavam que o autor seria o homem. Portanto, podemos imaginar que a capa do livro influencia toda a leitura do livro, não somente o julgamento do primeiro olhar.

Não seria surpresa saber que o efeito halo é utilizado malandramente em comerciais, para impulsionar vendas. Muito menos, que é empregado em campanhas eleitorais.

Um candidato em vestes simples e informais ganha a aspecto de desapego ao dinheiro (portanto ao suborno), e da proximidade ao povo. O outro que alardeia sua patente militar de outrora, faz alguns acreditarem que ele é disciplinado, austero e correto. O julgamento superficial causa sólidas impressões. E às vezes situações hilárias, como a descrita no blog Cozinha Bruta.

Nem mesmo hospitais são classificados adequadamente por seus pacientes. Foi o que provou o sociólogo Cristobal Young, em recente publicação. Ele investigou como usuários avaliaram 3.000 hospitais dos Estados Unidos. A satisfação dos pacientes não vinha pelos indicadores de sobrevivência, muito menos pela qualidade de equipe médica. Entretanto, os pacientes se influenciavam por aspectos bem evidentes, relacionados à hospedagem e à alimentação.

Quartos silenciosos provocam muito mais satisfação do que ter menos riscos de morrer. Young destacou que competições entre hospitais por pacientes, favorecem melhorias na hotelaria, mas reduzem investimentos no desenvolvimento dos funcionários.

A dúvida causa desconforto psíquico. O raciocínio rápido poupa energia ao nos livrar de análises críticas, sempre mais longas e cuidadosas. O efeito halo é fruto deste processo mental acelerado, pouco analítico.

Mesmo sem resolver os problemas, traz a sensação subjetiva de congruência, silenciando o desconforto da dúvida. Mesmo apoiados em critérios superficiais, por vezes inconsistentes, o efeito halo nos tranquiliza e nos deixa confiantes. Assim depositarmos nossa fé em alguém ou em algo, sem enfrentarmos o esforço necessário para o melhor julgamento.

Referências:
Cristobal Young, Xinxiang Chen Patients as Consumers in the Market for Medicine: The Halo Effect of Hospitality Social Forces, 2020 https://doi.org/10.1093/sf/soaa007
Karen Dion, Ellen Berscheid. WHAT IS BEAUTIFUL IS GOOD Journal of Personality and Social Psychology 19722,. Vol. 24, No. 3, 285-290
Genevieve L. Lorenzo, Jeremy C. Biesanz, and Lauren J. Human Accurately Understood: Physical Attractiveness and Accuracy in First Impressions of Personality. DOI: 10.1177/0956797610388048
Joseph P. Forgas. She just doesn’t look like a philosopher…? Affective influences on the halo effect in impression formation. European Journal of Social Psychology 2011 https://doi.org/10.1002/ejsp.842

Fonte: Uol – Cotidiano

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