Narração feminina na Band mostra que futebol começa a ganhar outras vozes

Quando penso nas minhas memórias de futebol, elas não são compostas apenas por imagens. Sempre tem uma voz que embala o ritmo das jogadas, dos gols, das defesas históricas que ficam no nosso imaginário da infância à vida adulta. No meu caso, são algumas vozes.

Não há tetracampeonato que venha à cabeça sem Galvão Bueno gritando: ACABOU, ACABOU, É TETRA, É TETRA! Não há penta sem o mesmo Galvão eternizando RRRRRRRRRRRRRRONALDINHOOOO!

Em memórias mais recentes, sempre aparece o icônico “Que Beleza” do Milton Leite, que já até virou expressão do dia a dia —há momentos da vida que só podem ser definidos por um alto e sonoro “que beleeeeeeeza”.

E como esquecer o “Partiu Marta, com fé no pé. HISTÓRICOOOO” de Luis Roberto ao narrar o 17º gol da maior artilheira das Copas do Mundo?

As vozes do futebol dão ritmo, emoção e cor às memórias que cultivamos dele. No último século, carregam uma característica em comum: são todas vozes masculinas. Não é que não tenham existido narradoras nesses anos todos, mas as poucas que ousaram aparecer não tiveram espaço por tanto tempo a ponto de virarem nomes conhecidos para os amantes da bola.

Zuleide Ranieri, na Rádio Mulher, na década de 1970, foi uma das pioneiras. Luciana Mariano, na Band, na década de 1990, apareceu em alguns jogos de seleção feminina e depois no Campeonato Pernambucano de 1999.

E aí houve um grande hiato até que começassem a surgir notícias de narradoras conquistando espaço no cenário nacional. Tanto que, quando a Rádio Inconfidência, de Minas Gerais, anunciou em 2017 que Isabelly Morais narraria um jogo do América-MG pela Série B do Campeonato Brasileiro, a repercussão foi enorme. Isso talvez tenha ajudado a colocar o assunto em pauta: por que não havia mulheres narrando futebol na televisão?

Em 2018, o Esporte Interativo lançou um concurso para selecionar uma narradora que teria a oportunidade de comandar uma transmissão da final da Champions League. No mesmo ano, a Fox Sports criou o “Narra Quem Sabe”, que selecionou três narradoras (Isabelly Morais, Renata Silveira e Manuela Avena) para fazerem transmissões da Copa do Mundo da Rússia —foi a primeira vez que um Mundial teve vozes femininas na narração na televisão brasileira.

Hoje, Renata Silveira segue nos microfones do canal, e agora Isabelly Morais também terá a chance de realizar um sonho que não havia tido na infância (afinal, como ela poderia sonhar ser narradora, quando não havia nenhuma mulher fazendo isso?), mas que passou a ter depois de ter vivido sua primeira experiência no Independência.

“Entendi que deveria continuar quando olhei para as cabines ao lado e só vi homens ao meu redor”, ela conta. No domingo, a mineira estreou na TV aberta, transmitindo as quartas de final do Brasileiro feminino entre Santos e São Paulo na Bandeirantes.

Muita gente reage a isso com uma rejeição imediata. “Não gosto de mulher narrando futebol”, dizem. Hoje, essa frase não faz nenhum sentido. Primeiro, porque ninguém está tão acostumado a ouvir mulheres narrando jogos a ponto de dizer que “não gosta” de nenhuma delas (infelizmente, ainda são poucas).

Segundo, porque essa generalização acontece apenas com o gênero feminino. Ouvimos as pessoas dizendo que não gostam do narrador x, mas alguém já flagrou um “não gosto de homem narrando”?

A gente precisa lembrar que existe uma coisa automática no nosso imaginário quando pensa em narração de jogos de futebol —e isso foi construído ao longo das décadas, porque só vimos homens ocupando essa posição.

Por muito tempo, as vozes do futebol foram sempre as deles. Agora, elas começam a trazer outros tons para embalar o jogo.

Fonte: Uol – Folha

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