Mentiras de Trump e campanhas de fake news inflamam manifestantes e geram temor de violência

Em menos de 24 horas, mais de 365 mil americanos entraram para um grupo recém-formado no Facebook, o StopTheSteal (parem o roubo), em que apoiadores do presidente Donald Trump se organizavam para protestar contra o que consideram ser fraudes na apuração da eleição americana.

“Os democratas estão tramando para invalidar os votos dos republicanos. Junto com o presidente Trump, faremos todo o necessário para garantir a integridade da eleição”, dizia o grupo. A página também espalhava notícias falsas já desmentidas, como a declaração de que eleitores em um condado do Arizona teriam sido incentivados a votar usando uma caneta hidrográfica, porque isso invalidaria os votos.

O Facebook derrubou a página do grupo, por ameaçar a integridade das eleições. Mas outros grupos como esse estão sendo formados, tendo como principal combustível as declarações incendiárias —e falsas— de Trump, seus filhos e seus aliados.

Uma entidade que monitora desinformação sobre o processo eleitoral, a Election Integrity Partnership (Parceria para Integridade da Eleição), teme que manifestantes estejam se organizando online para protestar na Filadélfia, segundo disse à Folha Emerson Brooking, pesquisador do laboratório digital forense do Atlantic Council, que compõe a Parceria.

A entidade vem monitorando a disseminação de desinformação nas redes sociais e aplicativos de mensagens de ativistas de extrema direita.

Alguns membros da milícia de supremacistas brancos Proud Boys (que receberam acenos de Trump no primeiro debate presidencial) já estariam na Filadélfia, a principal cidade da Pensilvânia.

Na quarta-feira (4), o advogado do presidente, Rudy Giuliani, e um de seus filhos, Eric Trump, afirmaram falsamente que observadores republicanos não haviam sido autorizados a acompanhar de perto a apuração de votos na Filadélfia.

“Assim fica muito fácil arrumar 50 mil votos totalmente fraudados”, disse Giuliani. “Não temos ideia se os votos são verdadeiros. A mesma situação está ocorrendo no Arizona, em Nevada e em Michigan. Na realidade, nós ganhamos a eleição, se os votos forem contados de forma justa.”

Desde setembro, a Parceria já detectou 900 narrativas falsas relacionadas às eleições circulando na internet.

“Tivemos um alívio inicial no dia da eleição e nas horas seguintes, que foram relativamente mais calmas do que antecipávamos”, afirma Brooking. “Mas agora estamos muito preocupados com a mobilização de ativistas, incentivados após seguidas declarações de Trump de que venceu as eleições.”

Por exemplo, diz o pesquisador, um grupo de pessoas pressionou para invadir uma seção eleitoral em Detroit, no estado de Michigan, aos gritos de “parem de contar os votos” —eles eram originalmente um grupo de opositores do uso de máscaras para evitar a Covid-19.

Donald Trump Jr. foi um dos trumpistas que disseminaram em suas redes o vídeo em que um suposto “whistleblower” denuncia fraude no correio de Detroit, que teria orientado funcionários a colocar datas anteriores em cédulas que chegassem após a data permitida.

Não há nenhuma confirmação sobre isso. O vídeo foi compartilhado mais de 100 mil vezes no Twitter.

A demora na contagem de votos e a chamada “miragem vermelha” (que faz os estados parecerem dar vitória aos republicanos no início da apuração) já eram esperadas. Isso porque a maioria dos eleitores republicanos votaram presencialmente, após Trump declarar inúmeras vezes que o voto pelo correio não era confiável. O democratas, por sua vez, foram estimulados a votar pelo correio.

No entanto, em estados como Pensilvânia, Michigan e Wisconsin, as legislaturas estaduais não permitiram que os votos pelo correio começassem a ser apurados com antecedência —eles só começaram a ser contados na véspera ou no dia da eleição. Portanto, os primeiros resultados nesses estados eram favoráveis a Trump, e foram gradualmente virando para Biden, na medida em que os votos pelo correio eram contabilizados.

Trump e aliados se aproveitaram disso para dizer que o voto estava sendo fraudado —já que era impossível ele ter uma vantagem enorme que depois encolheu.

Brooking afirma que as plataformas de internet têm sido muito mais ágeis na tarefa de reduzir o alcance, rotular ou derrubar conteúdos falsos ou que representam ameaça ao processo eleitoral. Foram rotulados, por exemplo, posts de Trump como “Parem a fraude”.

“Mas estamos nos aproximando dos limites da moderação de conteúdo pelas plataformas”, diz o pesquisador. “Como você modera o líder da maior potência do mundo?”

Trump, inclusive, tem recorrido a um bombardeio de e-mails aos eleitores para fugir das restrições do Facebook e Twitter.

Nesta quinta-feira (5), enviou a milhões de pessoas um comunicado que dizia: “SE FOREM CONTABILIZADOS OS VOTOS LEGAIS, EU GANHEI A ELEIÇÃO COM FOLGA! SE CONTABILIZAREM OS VOTOS ILEGAIS E ATRASADOS, ELES PODEM ROUBAR A ELEIÇÃO DA GENTE!”

Um de seus aliados, Steve Bannon, que ajudou Giuliani no vazamento das mensagens obtidas do laptop de Hunter Biden e publicadas pelo tabloide New York Post, também disparou emails por meio de sua empresa relações públicas.

“Os democratas acham que nós vamos desistir como republicanos normalmente desistem. Mas isso não vai acontecer. @realDonaldTrump venceu. Ele vai começar seu segundo mandato. Nós vamos trabalhar”, afirma o texto.

Fonte: Folha de São Paulo

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