Incentivada por Bolsonaro, principal fabricante de cloroquina diz à CPI da Covid que vendas subiram 30%

A farmacêutica Apsen informou à CPI da Covid no Senado que vendeu 58,8 milhões de comprimidos de hidroxicloroquina em 2020, volume 30% maior do que o registrado no ano anterior.

A empresa disse à comissão que já esperava uma alta de 16% na venda da droga. Indicada em bula para malária, artrite reumatoide e outras doenças, a hidroxicloroquina é ineficaz contra a Covid-19, mas se transformou em uma aposta do presidente Jair Bolsonaro no combate à pandemia.

Principal fabricante do produto no Brasil, a farmacêutica recorreu ao governo federal para liberar a importação do IFA (insumo farmacêutico ativo) para produção de hidroxicloroquina.

Em abril do ano passado, Bolsonaro citou nominalmente a Apsen e a farmacêutica EMS ao pedir para o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, destravar o embarque do ingrediente.

Segundo a Apsen, havia risco real de falta do medicamento para pacientes de doenças crônicas por causa da restrição das exportações do IFA indiano.

A empresa reconheceu que a procura pelo tratamento ineficaz puxou a alta na venda da hidroxicloroquina.

“Parte do crescimento em 2020 se deveu à ampla divulgação mundial dos supostos benefícios da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19, mesmo considerando a necessidade de retenção de receita médica desde março/2020”, disse a Apsen à CPI.

Além de estimular o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina, o governo Bolsonaro abriu uma corrida para produção, compra e doação dos fármacos ao SUS. Sem demanda, milhões de comprimidos estão agora encalhados, como mostrou a Folha.

Em documento enviado à comissão de inquérito, o CFF (Conselho Federal de Farmácia) disse que a Covid-19 “deflagrou uma epidemia de uso irracional de medicamentos”.

“As vendas de alguns fármacos vinculados à prevenção ou cura da doença, mesmo sem a comprovação de que sejam eficazes para esse fim, chegaram a aumentar 857%, caso da ivermectina”, disse o órgão, citando dados do primeiro ano da crise compilados pela consultoria IQVIA.

A Apsen disse à CPI que não captou recursos do BNDES para produção da hidroxicloroquina e que não recomenda a droga contra a Covid-19. A farmacêutica recebeu R$ 20 milhões do banco em 2020.

Segundo a empresa, a comercialização do medicamento representou 10,1% do seu faturamento líquido. No total, a receita da empresa subiu 18,1% em 2020, após alta de 20,7% em 2019.

“As vendas do medicamento Reuquinol (nome comercial do fármaco) apresentaram crescimento nos últimos cinco anos, de forma orgânica, devido ao maior acesso de pacientes crônicos ao produto com o diagnóstico das doenças previstas em bula”, disse a Apsen, em nota enviada à Folha.

A CPI pediu dados de produção e receita de empresas que têm aval no Brasil para venda de medicamentos do chamado “kit Covid”, como hidroxicloroquina e ivermectina, além da quebra de sigilo de alguns dirigentes.

Senadores querem entender a razão de o Itamaraty e o próprio Bolsonaro terem se empenhado para garantir o fornecimento das drogas.

As farmacêuticas Cristália, Prati Donzaduzzi, Super Farma, Aché, Sandoz e Farmoquímica enviaram os dados sob sigilo à CPI. Algumas empresas pediram mais prazo para a resposta.

“A Apsen fabrica o Reuquinol há 18 anos. Com o aumento da demanda, a produção foi ajustada para organizar o abastecimento do mercado e prover o medicamento aos pacientes crônicos que fazem uso contínuo do medicamento”, disse a empresa, em nota.

A farmacêutica EMS informou aos senadores, na última semana, que faturou R$ 142 milhões com estes medicamentos em 2020, valor oito vezes superior ao registrado em 2019. Apenas a soma com a venda de ivermectina saltou de R$ 2,2 milhões para R$ 71,1 milhões.

Com uma fatia menor do mercado, a Sanofi disse à comissão que vendeu cerca de 150 mil caixas do mesmo medicamento, alta de 351,3%.

A Apsen e a Sanofi afirmam que não venderam ao SUS o fármaco ineficaz contra a Covid.

A farmacêutica Vitamedic disse à CPI que a venda de Ivermectina pela empresa aumentou 1.230% em 2020, chegando a 75,8 milhões de caixas.

Bolsonaro estimula reiteradamente o uso desses medicamento contra a Covid. Ele mesmo repete que usou o kit e chegou a apontar uma caixa de hidroxicloroquina para uma ema que vive no Palácio da Alvorada.

Após participar de uma manifestação de motos com apoiadores no último dia 12, em São Paulo, o presidente voltou a citar o medicamento e disse que “não faz mal nenhum” usá-lo.

A hidroxicloroquina para tratamento de Covid-19 foi a droga mais estudada desde o início da pandemia, com 268 pesquisas científicas registradas em 55 países, mas sua eficácia não foi comprovada nem para tratamento de pacientes internados nem como medida profilática, de acordo com as pesquisas científicas que utilizam o chamado padrão-ouro do método científico.​

Fonte: Folha de São Paulo – notícias

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