Geopolítica da pandemia da Covid-19 hoje não favorece a China

A atuação diplomática da China foi acumulando apelidos ao longo do ano. Diplomacia das máscaras, diplomacia do lobo guerreiro e, agora, diplomacia da vacina. A geopolítica da Covid-19 ajuda a explicar tanto o maior ativismo chinês, quanto o exame mais atento da sua política externa.

Com a diplomacia das máscaras, a China doou e vendeu suprimentos médicos para o combate à pandemia, além de enviar equipes de especialistas para países afetados. De países paupérrimos a membros do G7, vários receberam apoio. Chineses aproveitaram para reforçar o conceito de Rota da Seda da Saúde —combinando seu projeto central de política externa à prioridade do momento.

Com a chamada diplomacia do lobo guerreiro, a China passou a adotar um tom claramente mais combativo —para alguns, agressivo— no plano externo e via mídias sociais. Um estilo menos diplomático, por assim dizer, especialmente diante de tentativas de culpá-la pela pandemia. Viu-se exemplo disso no Brasil. O tom voltou a ser mais conciliador com os meses.

Agora, as atenções se voltam para a diplomacia da vacina. A China fecha parcerias com outros países para realização de testes clínicos. Conclui acordos para a produção de vacina no exterior. Oferece empréstimos para quem precisa de ajuda na aquisição de doses —US$ 1 bilhão (R$ 5,5 bilhões) para América Latina e Caribe. Promete doações. Assegura prioridade no fornecimento para presidentes aflitos.

Em outubro, a China finalmente se juntou à Covax, aliança que envolve mais de 160 países para financiar o desenvolvimento de uma vacina e viabilizar sua distribuição equitativa no mundo.

Antes, a China priorizava a via bilateral, inclusive porque o retorno parecia mais direto. Agora, complementa a atuação solo com esforços multilaterais. De tabela, marca o contraste em relação aos EUA, que rechaçam a Covax. EUA querem distribuir cloroquina e a China, vacina.

Usando sua máquina diplomática, a China combate os esforços de responsabilizá-la pelo problema. Ao mesmo tempo, aproveita a oportunidade de se posicionar como quem contribui para a solução.

Para o sucesso da diplomacia das vacinas, além obviamente da própria vacina, a China precisa honrar o compromisso de fazer dela um bem público internacional. Aderir à Covax ajuda a dar credibilidade a essa promessa.

Para além do que fará a Covax, os chineses terão que encontrar uma fórmula para garantir ajuda a quem precisa —algo que possa justificar o discurso da distribuição equitativa.

Ademais, as doses serão necessariamente limitadas no início da produção. A maneira de priorizar sua distribuição será algo crítico no exercício diplomático chinês —afinal ninguém quer se sentir preterido.

Os chineses também terão que resistir à tentação da autopromoção excessiva, o que foi visto como um problema na diplomacia das máscaras.

Finalmente, a China não pode parecer estar lucrando com o problema alheio. O preço da vacina precisa ser módico sob pena de alimentar a lógica que se vê nas mídias sociais —pródigas em referências levianas como a do borracheiro que joga pregos na estrada.

Decerto, uma vacina chinesa, eficaz e segura, seria valiosíssima diante do maior problema sanitário do século. Em função disso, seria também enorme trunfo diplomático.

Uma vacina não resolve os desafios de imagem da China, mas certamente pode influenciar a geopolítica da pandemia. Mais do que máscaras e lobos-guerreiros, uma vacina pode se traduzir em respeito, prestígio e boa vontade em relação aos chineses.

O resultado não é garantido, mas uma vacina pode servir para Pequim como uma poderosa injeção de soft power. ​

Fonte: Folha de São Paulo

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