Futuro progressista pós-Trump

Alguns chamaram de justiça poética. No momento em que a contagem de votos no estado da Geórgia chegou ao distrito de Clayton County, antes representado pelo ícone dos direitos civis John Lewis, Joe Biden assumiu a liderança no estado.

Confesso que chorei, um tanto pateticamente, olhando para os números no estado sulista onde, em 1915, o grupo supremacista branco Ku Klux Klan ressurgiu e pregou a “purificação” da política. Por purificação, queriam dizer corpos negros pendurados em árvores (escutem Nina Simone).

A Geórgia é a síntese da árdua marcha para construir um lugar onde todos possamos existir como iguais. Testes de “bom caráter” e de cidadania aplicados a eleitores, além de primárias com apenas candidatos brancos, serviam de estrutura para suprimir votos de negros.

O Colégio Eleitoral foi criado como artifício para que estados sulistas pudessem contar seus escravos como três-quintos de uma pessoa livre, só para efeitos eleitorais. Esta marca ainda está na constituição dos EUA.

“O voto é o agente de mudança não violento mais poderoso que existe em uma sociedade democrática. Você deve usá-lo porque ele não é garantido. Você pode perdê-lo”, escreveu Lewis em sua carta de despedida, publicada quando de sua morte, em 17 de julho. Justiça poética, de fato.

Justiça feita pelas mãos de lideranças que, como Stacey Abrams, registraram milhares de eleitores. Justiça feita pelas mãos dos que foram às ruas contra a violência. Segundo pesquisa do AP VoteCast, 9 em cada 10 eleitores dizem que os protestos antirracistas foram um fator na hora de votar.

Movimentos antirracistas, climáticos, feministas continuarão vigilantes, porque é com a vigilância que se move um país.

Biden e Kamala Harris ganharam. É histórico, e devemos celebrar. Celebremos o fim de Trump, mesmo que o fim do trumpismo esteja longe de ocorrer. Estão ali à espreita, na teoria da conspiração contra a democracia, na Bíblia utilizada para justificar 
a prisão de crianças migrantes.

A congressista democrata Alexandria Ocasio-Cortez resumiu bem o desafio após a vitória de Biden: “O principal é que não estamos mais em queda livre para o inferno. Mas se vamos nos levantar ou não é uma questão. Fizemos uma pausa nesta descida precipitada. A questão é se e como iremos nos reconstruir.”

Espero que Biden e Kamala utilizem o pragmatismo para escutar que o momento é urgente e que a normalidade não mexe as estruturas que oprimem.

Biden fez bem ao elencar mudança climática e racismo sistêmico como prioridades. Kamala mostrou em seu discurso a que veio: citou Lewis e apontou para uma fala de esperança e ânimo sobre a alma da nação. Se rechearem a esperança e a normalidade que pregam com propostas ambiciosas, o céu será o limite, já que ao inferno não estamos mais descendo em queda livre.

E é na Geórgia que será determinado se tais mudanças serão possíveis, já que o futuro do controle do Senado também será definido ali. Negros e negras nos EUA combinam paciência histórica com senso de urgência. É como quem espera oito horas de pé para votar ao mesmo tempo que tem a arma do estado policial apontada para a cabeça.

Respiremos a vitória de uma Presidência normal. Mas normal não será suficiente. A Biden e Kamala dancemos hoje, com o peso da história nas costas para construir o amanhã.

Fonte: Uol – Cotidiano

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