Frase ambígua faz ofensa recair no alvo errado

Quando um professor de português lhe disser que uma vírgula pode mudar todo o sentido de uma frase, não duvide dele. Ainda ontem, numa conversa informal a propósito desse tema, um amigo lembrava o verso da canção de Chico César: “Respeitem os meus cabelos, brancos”.

O termo “brancos” nesse verso vem mesmo depois de uma vírgula, pois, longe de ser um adjetivo a indicar a cor dos cabelos de alguém (como o seria em Respeitem os meus cabelos brancos, em que “cabelos brancos” seria metáfora de idade), é um substantivo que nomeia as pessoas de cor branca, às quais o poeta se dirige (e o sentido muda por inteiro). Gramaticalmente, esse termo, que pode estar em qualquer posição da oração, exerce a função de “vocativo”.

Por meio do vocativo, que sempre é separado do restante da oração por uma vírgula, interpelamos o nosso interlocutor, identificando-o de maneira carinhosa, ofensiva, respeitosa, solene, informal etc.

Hoje no Twitter flagramos uma curiosa conversa entre mãe e filho: este, conhecido como 03 (zero três), havia tuitado sua análise conjuntural em dia de eleição nos EUA (“A esquerda é bem organizada em nível mundial. Por isso é importante acompanhar as eleições dos EUA. O que acontece lá pode se repetir aqui”); a mãe, Rogéria Bolsonaro, candidata no Rio de Janeiro a um lugar na vereança, respondeu ao filho, aparentemente ecoando a mesma preocupação dele: “A esquerda é uma só, em qualquer lugar do mundo, canalha!”.

A vírgula antes de “canalha” foi o bastante para animar as redes sociais. Afinal, a mãe estaria chamando o filho de “canalha” publicamente? Sua intenção deve ter sido a de tratar “canalha” como predicativo do sujeito (este, no caso, é “a esquerda”), ou seja, na opinião dela, a esquerda é canalha, mas… a frase é ambígua, e as pessoas não perdoaram o deslize.  O termo “canalha” foi lido como vocativo!

Para dizer o que pretendia, sem ambiguidade, ela teria de fazer pequenas alterações na frase, mas, veja só, foi xingar de canalha toda a esquerda e acabou insultando o próprio rebento. Esse pessoal que vive de ofender os outros, vez ou outra, tropeça na própria língua. A bruxaria virou contra a própria bruxa!

Fonte: Folha de São Paulo

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *