Floresta destruída pode ocultar cura da Covid-19

Esta coluna foi produzida para a campanha #CientistaTrabalhando, que celebra o Dia Nacional da Ciência (8 de julho). Ao longo de julho, colunistas cedem seus espaços para abordar temas relacionados ao processo científico, em textos escritos por convidados ou por eles próprios.

Depois de publicar com Stevens Rehen, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, um artigo sobre o dilúvio de estudos científicos em torno da Covid-19, volto ao tema nesta entrevista com Roberto Berlinck, químico formado pela Unicamp, doutor pela Universidade Livre de Bruxelas.

Ele foi também professor visitante na Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e na Universidade de Michigan (EUA) e integra a coordenação do programa Biota-Fapesp.

O assunto agora são estratégias para desenvolver medicamentos contra o novo coronavírus. Como uma eventual vacina demorará ao menos um ano (se chegarmos lá; após quatro décadas, não há vacina contra o HIV), busca-se entre medicamentos existentes algo que possa combatê-lo ou remediar os efeitos da síndrome respiratória aguda.

Não houve bons resultados até agora, apesar de toda a propaganda ideológica em torno de panaceias fraudulentas como cloroquina e ivermectina. Por que então não procurar algum composto na imensa biodiversidade brasileira?

Um argumento comum entre defensores das florestas nacionais as aponta como biblioteca farmacológica inexplorada e arsenal enterrado com farta munição para uma revolução biotecnológica. Ouço essa conversa há mais de 30 anos, e nada (ou muito pouco).

Em 2002, criou-se em Manaus o Centro de Biotecnologia da Amazônia. Parecia que a bioeconomia sonhada por visionários como o climatologista Carlos Nobre iria enfim preparar-se para decolar. Após 18 anos, não se tem notícia de nada tecnológica ou cientificamente relevante saído do vistoso edifício de 12 mil m2.

Fomentar pesquisa científica de primeira linha não é construir prédios, assim como combater a pandemia não é só erguer hospitais de campanha –precisa ter gente para que funcionem. Gente capacitada, com salários, propósito, liderança e equipamentos adequados.

A ciência anda muito mais devagar que o corona. Investimento de risco, depende de método e perseverança para gerar resultados a médio e longo prazos. Não conte para depois de amanhã com uma poção mágica para curar a Covid-19 saída da floresta amazônica, do cerrado ou da mata atlântica.

A pandemia de Covid-19 desencadeou uma corrida para desenvolver vacinas, com uma centena e meia de projetos, mas isso deve demorar ainda pelo menos um ano. Você confia em que haverá uma vacina e que esse prazo é factível? Desenvolver uma vacina não é fácil. Um exemplo é o caso do HIV, para o qual ainda não existe uma. Mas aprovar uma vacina exige várias etapas de testes. São necessários testes toxicológicos, para verificar efeitos colaterais, de eficácia, para anular os efeitos do vírus e ver se é capaz de promover imunidade. Precisa ser avaliada em diferentes grupos, saudáveis e não saudáveis, e quanto à estabilidade e durabilidade. Essas etapas podem ser longas, demorar vários anos.

No caso atual, a urgência é total, mas segurança e eficácia não podem ser negligenciadas. Uma vacina que não funcione bem, ou que tem efeitos colaterais problemáticos, pode levar a população a não querer tomar a vacina. Com todo o esforço realizado, é possível que uma vacina contra a Covid-19 seja descoberta mais rapidamente. Mas não é possível se ter certeza. A boa notícia é que 21 vacinas já estão sendo testadas em humanos. Foi extremamente rápido. Outra boa notícia é que duas dessas vacinas estão sendo testadas no Brasil, em colaborações envolvendo o Instituto Butantan, a Unifesp e a Fiocruz. Uma é a chamada “vacina de Oxford” e a outra foi criada pela Sinovac, da China.

Enquanto a vacina não chega, buscam-se freneticamente compostos antivirais para combater o SarsCoV-2, começando, para ganhar tempo, pelos medicamentos já aprovados para outras indicações, como tocilizumabe, remdesivir e outros. Acha que essa via ainda renderá frutos? A terapia antiviral pode ser a única opção caso não se encontre uma vacina eficaz, como no caso do tratamento do HIV. Hoje muitos pacientes infectados com o HIV conseguem ter uma vida praticamente normal, tomando vários cuidados. Um tratamento antiviral para a Covid-19 deve ser buscado em paralelo à vacina. Duas estratégias principais podem ser consideradas, a utilização de medicamentos já aprovados para outras doenças (o chamado “reposicionamento”) ou a descoberta de novos antivirais.

Ambas alternativas são válidas. As indústrias farmacêuticas estão investindo grandes esforços no reposicionamento, uma via muito mais rápida do que a descoberta de um novo antiviral, que envolve várias etapas de pesquisa e avaliação em animais, testes clínicos, com um custo muito alto. Mesmo assim, é possível que um novo tratamento seja mais eficaz do que um reposicionamento, e as duas alternativas devem ser levadas adiante. Quanto mais pesquisa for realizada, melhor.

Outra via é fazer prospecção “in silico”, como se diz, testando virtualmente moléculas com estrutura para se engatar no coronavírus e desativá-lo. Essa estratégia tem dado algum resultado? Eu desconheço se algum antiviral foi desenvolvido especificamente pela abordagem “in silico”, a elaboração de fármacos utilizando técnicas computacionais. Esta abordagem é empregada quando se conhece um alvo terapêutico específico, como por exemplo o material genético viral, ou a forma como o vírus penetra nas células. A técnica “in silico” tem tido sucesso na otimização funcional de fármacos, uma vez que permite analisar vários aspectos como solubilidade, transporte através de membranas, como o fármaco se conecta no sítio ativo da molécula sobre a qual deve atuar, dentre outros fatores. É uma das muitas ferramentas que podem ser empregadas na descoberta e otimização de tratamentos.

Também se propõe buscar compostos em organismos da biodiversidade brasileira, como microrganismos e plantas, com atividade contra o vírus da Covid-19. Há algum grupo fazendo isso?A descoberta de fármacos a partir da biodiversidade, não somente brasileira, historicamente constituiu a principal forma de descobrir moléculas de interesse médico. Dados numéricos que demonstram essa realidade estão documentados em vários artigos de David Newman e Gordon Cragg, que foram pesquisadores do National Cancer Institute dos EUA. A chamada “biodescoberta” é um processo trabalhoso, de longo prazo. No caso específico de antivirais para tratar a Covid-19, alguns grupos de pesquisa do Brasil estão trabalhando nesse sentido, o que é muito bom. Cabe mencionar que o primeiro antiviral descoberto para tratar o HIV, a azidotimidina (AZT), foi desenvolvida a partir de uma molécula descoberta de uma esponja marinha do Caribe, um exemplo claro do potencial da biodescoberta.

Há pelo menos três décadas se ouve que a biota das florestas tropicais brasileiras, como a amazônica e a atlântica, são gigantescas bibliotecas de fármacos. Por que a bioprospecção nacional até hoje não deu resultados dignos de nota? A biodiversidade brasileira é um repositório químico de valor incalculável. Muitos organismos vivos produzem ou acumulam substâncias que apresentam atividade farmacológica. A evolução biológica ocorre há cerca de 3 bilhões de anos na Terra, tempo suficiente para que muitos organismos desenvolvessem a biossíntese dessas substâncias para se defenderem em seus habitats. Explorar racionalmente a biodiversidade brasileira é uma estratégia importante para a descoberta de substâncias farmacologicamente ativas.

O Brasil adquiriu excelente experiência nesse tipo de pesquisa ao longo de décadas, em várias universidades do país. Porém, esse é um processo longo, que exige foco, dedicação, pesquisa interdisciplinar, e certa dose de sorte. A pesquisa da química de plantas é a mais consolidada no país, e penso que deverá trazer frutos concretos mais rapidamente. A pesquisa da química de micro-organismos e organismos marinhos, por exemplo, é mais recente no Brasil, e precisará mais tempo para ser bem explorada. E a descoberta dessas substâncias é apenas uma primeira etapa. Para o desenvolvimento posterior, são necessárias outras especialidades, como síntese química e biotecnologia, para otimizar a produção em quantidades suficientes para testes em animais e clínicos. Melhorar a pesquisa nessa direção poderá ser determinante para um dia o Brasil descobrir um fármaco a partir da sua biodiversidade.

Além de antivirais, quais tipos de medicamentos seria estratégico para o Brasil, campeão de biodiversidade, eleger como prioridade de pesquisa e bioprospecção? Diversos grupos de pesquisa brasileiros se dedicam à descoberta de fármacos para o tratamento de doenças negligenciadas, como Chagas, leishmaniose e malária. São enfermidades que afetam os estratos da sociedade mais desfavorecidos. As causadas por vírus também têm impacto social, como dengue, zika, chikungunya e, agora, a Covid-19, que ainda não têm tratamentos efetivos. O desenvolvimento de novos antibióticos também é extremamente urgente. Quase 2 milhões de pessoas morrem anualmente por falta de tratamento para tuberculose. Infecções causadas por bactérias cada vez mais resistentes aos antibióticos conhecidos são de tratamento cada vez mais difícil, por causa da falta de investimentos em novos compostos, em nível mundial. Governos de países da Europa têm uma crescente preocupação com isso.

Historicamente, os melhores antibióticos foram descobertos a partir da natureza, como as penicilinas, por exemplo. Eleger prioridades não é fácil, mas pode ser importante para estimular ciência e tecnologia de qualidade e impacto mundial. Contudo, é preciso perceber que a pesquisa em universidades e centros de pesquisa deve ser menos direcionada e mais criativa, sem perder de vista as demandas da sociedade. Estabelecer prioridades de maneira rígida pode impedir descobertas que não sejam evidentes hoje, mas muito importantes no futuro.​

Fonte: Uol – Cotidiano

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