Flamengo, Inter e Palmeiras: o que parecia bem encaminhado virou interrogação

“Política é como nuvem. Você olha ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou’’, dizia o governador de Minas José de Magalhães Pinto (1909-1996), um dos líderes civis do Golpe de 1964.

O título da coluna é também o do livro mais célebre do filósofo norte-americano Marshall Berman (1940-2013), ao se apropriar de frase do Manifesto Comunista (1848) de Karl Marx e Friedrich Engels.

Tanto Magalhães Pinto quanto Berman poderiam estar se referindo ao futebol brasileiro, onde a autossustentabilidade dos clubes é meta jamais alcançada.

Hegemonias como a do Bayern Munique, da Juventus, Real Madrid e Barcelona, PSG, são utopias no Patropi.

Santos, Flamengo, Palmeiras e São Paulo ameaçaram alcançá-la em décadas passadas, o Corinthians a prometeu nesta e os resultados estão aí para quem quiser ver.

Fiquemos, portanto, em 2020.

Quando o ano passado acabou não havia dúvida de que o candidato a ganhar o que disputasse seria o Flamengo.

E que o Palmeiras era o maior empecilho. Daí Inter e Atlético Mineiro contrataram Eduardo Coudet e Jorge Sampaoli e também se tornaram ameaças.

Ia tudo muito bem até que o último fim de semana revelou-se um tsunami.

O Flamengo levou nova goleada e demitiu o treinador Domènec Torrent, porque, como todos, escolhe técnicos como se jogasse na roleta, sem a menor lógica, sem aprofundamento de perfil e, endêmico no país, sem a menor paciência.

A cartolagem do clube da Gávea que se pretendia moderna contratou Abel Braga, que durou cinco meses, ganhou na loteria com o lusitano Jorge Jesus, o oposto de Braga, e atirou às cegas no catalão. Durou três meses.

O rubro-negro permanece com o melhor elenco, mas está em crise agravada pelo desnorteamento e arrogância de seus cartolas que agora apostam em Rogério Ceni.

O raio que atingiu o Palmeiras é de outra origem, embora também o alviverde venha padecendo de soberba e falta de convicção: já havia perdido o belo achado Wesley e ficou sem o líder Felipe Melo. Some-se a isso a convocação de alguns de seus principais jogadores para disputar as Eliminatórias da Copa do Mundo e não há como negar que o farto elenco encurtou.

Finalmente, o Inter. O Colorado fazia campanha a permitir sonhar com o fim da fila no Brasileiro que vem desde 1979.

Mas perdeu Coudet. Então, reinventou Abel Braga, que nada tem a ver com o gringo.O que parecia firme virou gelatina.

Óbvia é a satisfação do Galo, à custa do atual mecenato que pode resultar, apesar da ciclotimia, no título almejado desde 1971.

Motivos para otimismo têm também o São Paulo e o Grêmio. Ao resistirem bravamente diante dos protestos de seus torcedores, mantiveram Fernando Diniz e Renato Portaluppi e podem agora comer pelas beiradas, discretamente.

A reta final do campeonato está aberta e promete muito equilíbrio até o fim, como há tempos não acontecia.

Não faltarão emoções na disputa pelo título e qualquer prognóstico virou chute tanto em cima quanto embaixo, zona onde estão estacionados Botafogo, Vasco e Athletico, três campeões brasileiros.

Conclusão: o que parecia montanha era apenas moinho de vento.

E a areia movediça ameaça camisas pesadas que funcionam como âncoras. Em vez de levarem a bom porto, levam ao fundo do mar.

É o preço do associativismo no mundo dos clubes-empresas.

Fonte: Uol – Folha

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