Ensino híbrido não é só a junção de aulas presenciais e remotas

As escolas reabrirão em breve no Brasil. Depois de quase um ano letivo inteiro fechadas, enfrentarão o desafio de acolher os estudantes e reconectá-los ao ambiente escolar e de lidar com efeitos do longo período de isolamento em sua saúde mental e na aprendizagem. Também será hora de organizar o calendário escolar e redesenhar o currículo e a forma de ensinar.

A despeito do otimismo inicial em relação às possibilidades do uso remoto, estudos recentes demonstram perda de aprendizagem em países em que as escolas permaneceram fechadas por menos tempo que no Brasil. Dois estudos realizados com estudantes que se formaram na metade deste ano, um deles na Bélgica e outro na Holanda, chegaram a resultados semelhantes: as crianças aprenderam menos que seus colegas em anos anteriores e aumentou a desigualdade.

No Brasil —um país maior, mais desigual, com acesso infinitamente menor à internet e a computadores do que os países citados e onde o fechamento das escolas já dura quatro vezes mais tempo— é possível imaginar o desafio que está por vir.

Assim como a aposta inicial de que estudantes pobres aprenderiam usando o celular dos pais e de que “a tecnologia entraria de vez na educação” não foi o sucesso que se esperava, o caminho para a adoção do ensino híbrido nas escolas deve ser realizado deixando os fetiches da “modernidade educacional” de lado.

O que comumente se chama de ensino híbrido não é simplesmente a junção de aulas presenciais e do uso de tecnologia em sala de aula ou fora dela, mas sua integração, unindo atividades colaborativas e individuais.

Uma aula híbrida sobre a China, por exemplo, pode ser iniciada por uma atividade composta por pequenos filmes presentes na internet e atividades de leitura e pesquisa, seguidas de questões que façam o estudante refletir sobre o material proposto. Já no momento presencial, de posse das respostas individuais dos estudantes, o professor pode realizar uma discussão em sala, montar grupos de discussão ou propor aos estudantes um projeto colaborativo sobre a formação da sociedade chinesa. O professor pode ainda usar o período em sala para orientar os estudantes individualmente.

O desafio das escolas e redes é mais do que nunca pedagógico. É possível vencê-lo aprendendo com os erros e acertos do período em que as escolas estavam fechadas e seguindo alguns passos.

O primeiro passo se dá na redefinição do currículo e do calendário das aulas presenciais e na organização das turmas ao longo do ano. Até a vacina e a imunização, as aulas serão em sistema de rodízio, com os alunos revezando o espaço escolar e o de casa, ou de centros comunitários, uma boa alternativa para acolher os mais vulneráveis, que não têm em casa um espaço adequado para estudar.

O segundo passo é o de garantir as condições adequadas nas escolas e de acesso dos estudantes. Se a escolha for pelo uso de tecnologia, é fundamental que se amplie a conectividades das escolas e que se procure garantir que os estudantes tenham condição de se conectar e de realizar as atividades propostas, especialmente os que não tiveram acesso aos recursos digitais durante o período de ensino remoto, mas que precisam desenvolver habilidades relacionadas à cultura digital. Aqui há um grande desafio de gestão, mas sobretudo de garantir recursos financeiros para dar conta dos investimentos necessários.

O terceiro e mais importante passo é a formação de professores. O professor é o profissional que conhece o conteúdo proposto e sabe ensiná-lo. Em outras palavras: um bom matemático não necessariamente é um bom professor de matemática. Será o momento de formar os professores para dar conta de um novo currículo e de uma nova forma de ensinar. Embora muitos profissionais estejam habituados a trabalhar com projetos, essa não é uma mudança trivial.

Não será simples retomar as aulas em um regime de protocolos sanitários estritos e com estudantes em condições pessoais e de aprendizagem tão díspares. O sucesso nesse que é o maior desafio da história da educação no Brasil se dará se os gestores forem capazes de construir o caminho com seus professores e as comunidades escolares, não encararem a tecnologia como um fetiche e, sobretudo, compreenderem que nosso único objetivo é o de garantir a aprendizagem de todos.

Fonte: Uol – Cotidiano

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