Em cenário incerto, boca de urna na Polônia dá leve vantagem a presidente

“Sei que é tarde, mas acho que ninguém vai dormir nesta noite na Polônia”, afirmou o presidente, Andrzej Duda, ao convidar seu rival no segundo turno, o prefeito de Varsóvia, Rafal Trzaskowski (pronuncia-se tshaskófski), para uma visita ao palácio presidencial às 23h locais (18h de Brasília) deste domingo (12).

O motivo da insônia era a diferença de 1,6 ponto percentual que separava os dois candidatos à Presidência na pesquisa de boca de urna divulgada após o final da votação, às 21h (16h no Brasil).

Segundo o instituto Ipsos, Duda, apoiado pelo PiS (partido do atual governo), tinha 50,8% dos votos, contra 49,2% de Trzaskowski, da liberal Plataforma Cívica.

Os números deixam ainda o cenário incerto (a margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos), mas mostram com precisão uma Polônia dividida ao meio sobre o futuro do país.

Em jogo nesta eleição está a facilidade que o partido governista terá para levar adiante as reformas estruturais de Estado que começou a implantar ao voltar ao poder, em 2015.

A Presidência é um cargo institucional em regimes parlamentaristas (cujo chefe de governo é o primeiro-ministro), mas na Polônia seu ocupante pode vetar leis e barrar indicações à Justiça.

Duda, que ganhou dos opositores o apelido de Caneta (“apenas assina o que vem do PiS”, segundo eles), não deve ser obstáculo a iniciativas do governo, que já mudou o sistema de educação, restringiu a propriedade de terras por estrangeiros e aumentou o controle sobre a mídia pública.

Nos últimos anos, sua ação mais criticada tem sido a investida para elevar seu poder sobre o Judiciário, principalmente da Corte Constitucional (equivalente ao Supremo brasileiro).

Com um aliado na Presidência, o PiS ganha pista livre até pelo menos as próximas eleições parlamentares, em 2023. Esse caráter plebiscitário levou 68,9% dos mais de 30 milhões de eleitores às urnas, segundo o Ipsos, marca que deve ser recorde no país, onde o voto não é obrigatório.

A maior taxa de comparecimento já registrada foi de 64,7%, no segundo turno de 1995, uma eleição também muito disputada, em que os poloneses foram dormir no domingo acreditando que Lech Walesa havia sido reeleito, mas acordaram na segunda com o social-democrata Aleksander Kwaśniewski como vencedor das urnas, com 51,7% dos votos.

Neste ano, segundo a Comissão Eleitoral, um resultado não deve ser esperado para antes da tarde desta segunda (13); no limite, pode vir apenas na quarta (15).

Após o fechamento das zonas eleitorais, Duda comemorou em discurso “a vitória nas pesquisas” e reafirmou os temas sobre os quais construiu sua campanha: prometeu uma coalizão para “fortalecer os valores poloneses, valores como família, comunidade polonesa, história, tradição”.

O comício de Trzaskowski foi menos triunfante: “Estou absolutamente convencido de que nada nos derrotará, porque já vencemos, independentemente do resultado exato”.

O candidato da oposição —que entrou na corrida apenas em maio, depois que o primeiro turno foi cancelado pela pandemia de coronavírus— comemorou uma campanha “que trouxe esperança a uma Polônia aberta, sorridente, tolerante e europeia”.

O detalhamento da pesquisa deixa mais clara a divisão atual da Polônia: Trzaskowski venceu nas grandes cidades e nas regiões oeste e norte, que não faziam parte da Polônia até o final da Segunda Guerra, enquanto o presidente venceu nas cidades menores das regiões leste e sul do país, de povoamento mais antigo e tradicional.

Nessas regiões, fala mais forte o discurso do líder do PiS, o ex-primeiro-ministro Jaroslaw Kaczyński, de que a oposição, mais próxima da União Europeia, quer “entregar a Polônia aos estrangeiros”.

Duda teve 77,3% dos votos dos menos escolarizados, e Trzaskowski levou 65,9% dos graduados no ensino superior. O candidato do governo também liderou entre os mais idosos: 61,7% dos que têm 60 anos ou mais o escolheram, enquanto 64,4% dos jovens de 18 a 29 anos e cerca de 55% dos que têm de 30 a 49 anos votaram na oposição.

Já na divisão por sexo a pesquisa não mostra uma vantagem expressiva do candidato da oposição, como esperavam analistas e militantes feministas. Trzaskowski aparece com 50,4% dos votos, contra 49,6% de Duda.

Na noite deste domingo, analistas tentavam destrinchar os resultados à procura de pistas sobre quem sairá vencedor, mas os indícios também não era conclusivos.

A participação eleitoral aumentou em cidades menores, onde o PiS tem vantagem —durante a campanha, o governo prometeu caminhões de bombeiro às cidades de até 20 mil habitantes que tivessem maior comparecimento às urnas.

Por outro lado, ainda havia filas para votar em seções eleitorais no norte, onde a oposição tem vantagem, e mais de 500 mil poloneses (um recorde) se registraram para votar no exterior. No primeiro turno, Trzaskowski obteve mais que o dobro de votos de Duda fora da Polônia, mas neste domingo havia relatos de dificuldades para votar.

Em entrevista no palácio, no fim do domingo, Duda disse ter convidado o opositor para visitá-lo “para que o gesto simbólico de um aperto de mãos seja visto por todos os compatriotas e aplaque as emoções da campanha, que às vezes vão longe demais”.

Pelas redes sociais, Trzaskowski respondeu que a reunião era “uma boa ideia”, mas que “o momento mais apropriado parece ser depois que os resultados oficiais forem divulgados”.

Fonte: Folha de São Paulo – mundo

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