Em ano eleitoral, Governo da Bahia dobra verba para fundação de candidato aliado em Salvador

O governador da Bahia, Rui Costa (PT), dobrou em 2020 o volume de recursos repassados para o Instituto de Defesa dos Direitos Humanos Doutor Jesus, entidade gerida pelo deputado federal Pastor Sargento Isidório (Avante).

O deputado, que faz parte da base aliada do governador, disputa a Prefeitura de Salvador com o apoio do PSD dos senadores Angelo Coronel e Otto Alencar.

Em 18 de abril deste ano, a Secretaria de Direitos Humanos e Desenvolvimento Social da Bahia firmou um termo de colaboração com a entidade, com inexigibilidade de licitação, que prevê repasses para a entidade de R$ 19 milhões em 2020 e outros R$ 19 milhões em 2021.

O volume de repasses é duas vezes maior que o registrado anos anteriores: em 2019, a entidade recebeu R$ 9,8 milhões do governo baiano e, em 2018, o repasse foi de R$ 9,3 milhões. Desde o início da gestão Rui Costa, em 2015, foram R$ 53 milhões repassados pelo governo baiano para a entidade.

Comandada há quase três décadas pelo Pastor Sargento Isidório, a Fundação Doutor Jesus é uma comunidade terapêutica que atua no acolhimento de dependentes químicos e tem sede em Candeias, cidade da Região Metropolitana de Salvador.

Em nota, a secretaria justificou o aumento dos repasses alegando que houve um incremento no número de pessoas acolhidas. Em anos anteriores, o acordo previa o atendimento de 565 pessoas, número ampliado para 1.000 pessoas no contrato assinado este ano.

O incremento das vagas, informo a secretaria, foi motivado pelo aumento da demanda “de novos usuários que procuram atendimento, atingindo uma média, ininterrupta, de 25 pessoas por dia, inclusive nos finais de semana”.

“São pessoas com visíveis e urgentes necessidades clínicas, nutricionais e psíquicas, por serem, em sua maioria, oriundas de comunidades extremamente carentes, em situação de risco e vulnerabilidade social, com vínculos familiares fragilizados ou interrompidos”, informou a secretaria.

Do total de R$ 19 milhões previstos para este ano, o governo da Bahia já repassou R$ 10,1 milhões para entidades, dos quais R$ 8,8 milhões estão classificados na rubrica orçamentária “Apoio a Ações de Combate à Pandemia da Covid-19”.

Questionada sobre o repasse de recursos do combate à pandemia para uma entidade que atua no acolhimento a dependentes químicos, a secretaria informou que a Doutor Jesus atende ao um público de extrema vulnerabilidade e que necessita de apoio para a mitigar, entre outros riscos, o da Covid-19.

“A realidade apresentada pela pandemia e pela altíssima taxa de contágio do vírus impactou nas atividades desenvolvidas pela entidade, que diante do aumento do número de pessoas acolhidas diariamente, adotou medidas severas de prevenção à disseminação do vírus no interior da instituição”, informou.

Ainda segundo a secretaria, por causa da pandemia, a Doutor Jesus precisou construir novas estruturas para triagem e quarentena dos acolhidos, novos alojamentos e banheiros. Também foi ampliado o número de número de profissionais que atendem na entidade.

O deputado federal foi procurado pela Folha, mas não quis se pronunciar sobre o aumento dos repasses do governo baiano.

O Pastor Sargento Isidório é um dos quatro candidatos de partidos da base aliada do governador a disputar a Prefeitura de Salvador. Além dele, concorrem à eleição com o apoio de Rui Costa as candidatas Major Denice (PT) e Olívia Santana (PC do B), além do candidato Bacelar (Podemos).

A candidatura de Isidório é considerada estratégica na base governista por causa da alta popularidade na periferia de Salvador, o que lhe rendeu quase 170 mil votos na capital na eleição para a Câmara dos Deputados em 2018.

Com perfil histriônico e folclórico, Isidório último cumpriu quatro mandatos de deputado estadual e no ano passado foi o deputado federal mais votado da Bahia, com 323 mil votos. Este ano, disputa a prefeitura de Salvador pela segunda vez consecutiva. Em 2016, teve 8% dos votos.

Ele ganhou notoriedade em 2001, quando foi um dos líderes da greve da Polícia Militar durante o governo César Borges (1999-2022). Foi filiado ao PT, PSB, PSC, PROS, PDT e desde 2018 está no Avante.

Desde que deixou o PT, passou a ter uma atuação parlamentar mais voltada paras as pautas de costumes, criticando a relações homoafetivas e propondo inclusive um projeto de lei para “criação do dia do orgulho hétero”.

Em 2013, Isidório chegou a ser alvo de um processo disciplinar do PSB, partido ao qual era filiado. Deixou a legenda afirmando ser alvo e uma “patrulha de pensamento”.

No ano passado, foi processado por Daniela Mercury após chamar a cantora, ativista da causa LGBTI+, de “escrava de satanás”. A ação judicial terminou em acordo e o deputado teve que doar parte de seu salário em favor de uma entidade de assistência a homossexuais.

Por ter sucesso entre o eleitorado conservador, a avaliação entre governistas era que Isidório teria capacidade de entrar no eleitorado mais à direita que tende a votar em Bruno Reis (DEM), candidato apoiado pelo prefeito de Salvador ACM Neto (DEM), ajudando a forçar um segundo turno.

Em setembro, o governador Rui Costa, assim como os senadores Angelo Coronel, Otto Alencar e Jaques Wagner (PT), participaram da convenção que sacramentou o nome de Isidório para a disputa pela prefeitura. Na ocasião, o senador petista elogiou o candidato do Avante.

“Ele [Isidório] tem as posições dele. Seguramente algumas, coisas ele pensa diferente de mim, mas é por isso que eu digo que eu prefiro ficar com a essência dele. Na essência, ele tem compromisso de fazer pelos mais pobres, tem compromisso de trabalhar por uma Salvador cada vez mais humana”, disse.

Na eleição deste ano, o deputado veio para a disputa com uma candidatura mais estruturada, tendo como companheira de chapa a empresária Eleusa Coronel (PSD), mulher do senador Angelo Coronel.

No horário eleitoral, deixou de lado o perfil folclórico e abriu mais espaço para a candidata a vice. A estratégia, contudo, não tem surtido efeito. Segundo pesquisa Ibope, Isidório tinha 10% das intenções de voto em 05 de outubro, mas caiu para 5% na pesquisa divulgada no último dia 30.​

Fonte: Folha de São Paulo – notícias

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