Eleição de mulheres pode influenciar participação política de adolescentes, diz estudo

A vitória de candidatas mulheres em eleições para prefeito pode estimular adolescentes meninas a participar da vida política. É o que indicou um estudo feito por pesquisadores da FGV (Fundação Getulio Vargas) e do Insper.

Os professores Paulo Arvate, Sergio Firpo e Renan Pieri analisaram pleitos municipais entre 2000 e 2012 onde a disputa foi decidida, por uma margem estreita, entre um homem e uma mulher.

Os resultados, que foram publicados em maio no European Journal of Political Economy, sugerem que a performance feminina na eleição pode afetar o número de adolescentes que se registraram para votar facultativamente no pleito seguinte.

Segundo os pesquisadores, nos casos em que a mulher vira prefeita, há um número maior de meninas adolescentes de 14 e 15 anos que, na eleição seguinte, quando completam 16 ou 17 anos, se registram para votar.

No Brasil, o voto é facultativo para essa faixa etária, que poderia deixar para participar apenas ao completar 18 anos, quando ele passa a ser obrigatório.

O estudo também indica que o efeito pode ser o inverso. “No nosso caso, não é só quando as mulheres ganham que aumenta a participação das meninas. Quando elas perdem, diminui o registro das adolescentes. Isso a literatura não tinha mostrado”, diz Arvate.

O escopo da análise, feita com base em dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), foi um conjunto de cidades sem segundo turno e onde a eleição teve resultado apertado entre o candidato e a candidata.

“Nesse tipo de eleição, é um tanto aleatório quem ganha, não há um motivo claro de vitória de um ou de outro”, explica o professor. Isso é importante para descartar casos de candidatos muito fortes para um dos dois lados ou que tenham características que pudessem contaminar as motivações que levaram as meninas a se registrar mais ou menos.

Em 2012, por exemplo, houve 150 vitórias de mulheres e 141 derrotas. Dessas, em 30 casos a candidata mulher foi eleita com uma margem de apenas 1%, enquanto em outros 24 casos essa foi a margem da derrota.

Nesse intervalo, os pesquisadores notaram diferenças no número de meninas que se registraram, aos 16 e 17 anos, na eleição seguinte, em 2014. Nas cidades onde as mulheres venceram, 52% das adolescentes se registraram para votar. Naquelas onde perderam, esse número cai para 48% das meninas. ​

A ideia dos professores era testar em termos de participação eleitoral efetiva a teoria de que a participação de mulheres na política tem influência no engajamento de outras mulheres na política.

“Há muitas pesquisas nessa área, a maioria baseada em ‘survey’ [enquetes] para medir se a mulher passa a tratar mais de política com a família etc. Nós pensamos ‘dá para medir efetivamente, com o voto facultativo’, e começamos a investigar”, diz o economista.

Em 2017, os três autores já haviam apontado que a eleição de mulheres com ensino superior aumentava o número de votos dados a candidatas em pleitos subsequentes. Eles defendem que isso acontece porque há uma quebra de estereótipos negativos relacionados às mulheres quando o eleitor é exposto a boas políticas vindas de uma administradora preparada.

Na atual pesquisa, eles analisaram outras hipóteses que poderiam estar influenciando no resultado, como a possibilidade de que uma prefeita mulher implemente políticas públicas que favoreçam o registro eleitoral de jovens meninas. A conclusão, no entanto, é que não há uma diferença significativa nesse sentido. “Procuramos políticas públicas que pudessem estar ‘roubando’ desse efeito principal que estamos querendo mostrar”, afirma Arvate.

Para os pesquisadores, o aumento de registro das meninas é realmente influenciado pela questão do chamado “role model”, a referência positiva feminina de liderança.

Outro aspecto é o de que a participação facultativa de meninas é maior em eleições onde há mulheres concorrendo no topo contra homens.

E, em lugares onde meninas de diversas idades convivem entre si na mesma residência (como uma irmã de 17 e uma de 14 ou 15 anos), a tendência de impacto é fortalecida, tanto positiva como negativamente.

“Nossa hipótese é de que quando adolescentes mais velhas observam a derrota/vitória de mulheres, elas têm uma influência nas adolescentes mais novas transmitindo sua própria experiência para elas”, diz o estudo.

O efeito é localizado: não se estende para outros municípios próximos aos analisados, onde a disputa foi apenas entre homens.

Uma conclusão final do estudo diz respeito ao acesso à informação. No caso de cidades onde as meninas têm acesso a redes públicas de wi-fi os resultados são intensificados, assim como no caso de cidades onde há políticas educacionais sobre desigualdade de gênero no ensino público.

A socióloga e professora da UERJ Clara Araújo, que pesquisa a presença feminina na política, afirma que há um símbolo importante nas candidaturas femininas. “Há o aspecto da representação simbólica, que expressa uma possibilidade em que as pessoas se veem e são estimuladas, e veem que há possibilidades de pessoas iguais a ela fazendo uma coisa”, afirma.

Ela diz que, por esse “espelho” oferecido pelas candidatas às outras mulheres, os resultados de que há também um impacto negativo fazem sentido. “Dentro dessa lógica é possível sim, é como se funcionasse como efeito simbólico ao contrário, passando uma certa ideia de ‘poxa, as mulheres não conseguem’, já que o estímulo do voto facultativo dos jovens está muito ligado a candidaturas em que eles acreditem, em possibilidade de vitória.”

Arvate afirma que o estudo reforça a necessidade de aumentar a representatividade feminina na política. “E já se sabem diversos efeitos positivos dessa participação, de que elas são menos corruptas, menos patrimonialistas, fazem mais políticas pró-mulher. É necessário fazer a mulher participar”, diz.

Fonte: Folha de São Paulo – notícias

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