Desempenho fraco entre latinos não deve levar Biden a endurecer contra Venezuela e Cuba

Como é possível, no país campeão em mortes por Covid-19, com 12,6 milhões de desempregados, que o presidente no cargo não perca de lavada a tentativa de se reeleger?

Essa é a pergunta que muitos fazem neste momento. Mesmo que Joe Biden vença a eleição, o resultado ainda assim será frustrante para os democratas. A campanha do ex-vice previa uma vitória acachapante, com a retomada do controle do Senado e aumento da margem da maioria na Câmara.

Em vez disso, no Senado, é baixa a chance de os democratas assumirem o controle da Casa, e a vantagem na Câmara deve encolher. Se Biden levar a Presidência, terá sido uma vitória sem tranquilidade.

Também ficaram para trás as previsões de que estados-pêndulo ou tradicionalmente republicanos, como Texas, Iowa, Ohio e Flórida, mudariam de lado. Das regiões decisivas, foram para a coluna democrata Michigan, Wisconsin e Arizona, este último movido por mudanças demográficas e um voto de desagravo ao senador John McCain (1936-2018), um herói de guerra que foi ofendido por Trump.

A ironia é que a campanha republicana, que fez da supressão de votos a linha-mestre de sua estratégia eleitoral, acabou aumentando seu escopo de eleitores, ao conquistar uma fatia dos votos de homens hispânicos que tradicionalmente votam em democratas —ou simplesmente não votam.

Segundo o AP VoteCast, em levantamento feito com 100 mil eleitores, 59% dos homens hispânicos declararam voto em Biden, e 39%, em Trump. Em 2016, Trump recebeu 28% desses votos, e Hillary Clinton, 65%, de acordo com o Pew Research Center —o AP VoteCast só começou a ser realizado em 2018.

Os homens hispânicos (e, em menor grau, os homens negros) corresponderiam ao “homem branco sem ensino superior” da eleição de quatro anos atrás. À época, o comparecimento bem superior ao previsto acabou sendo responsável, ao menos em parte, pela vitória de Trump. Desta vez, latinos seriam parcialmente responsáveis por transformar a onda azul em marolinha.

Na Flórida, a política externa do republicano teve reflexos positivos junto ao eleitorado latino. A retórica agressiva anti-Maduro e anti-Castro, aliada a pressões para mudar o regime na Venezuela, mobilizaram hispânicos mais conservadores, especialmente os de origem cubana, venezuelana e colombiana.

Fora da Flórida, porém, segundo duas pessoas próximas à campanha de Biden, a política externa não é um tema importante para os hispânicos –economia e valores conservadores orientam o voto.

Para um deles, o bom desempenho da economia, até a pandemia de Covid-19, gerou ganhos de renda entre as populações negra e hispânica e foi fator determinante em outros estados.

Outras explicações seriam o voto baseado em valores –muitos hispânicos têm visões conservadoras sobre aborto e casamento gay– e a imagem de ‘homem forte’ de Trump. Há, ainda, a enorme enorme diferença de gênero, já que 66% das mulheres hispânicas votaram em Biden, e 32%, em Trump.

Eles não acreditam que o fraco desempenho de Biden entre o eleitorado hispânico leve o democrata, caso eleito, a endurecer a política com Venezuela, Nicarágua e Cuba —tampouco haveria aproximação.

As sanções mais duras contra o regime de Nicolás Maduro começaram no governo de Barack Obama, de quem Biden foi vice. Pode, inclusive, haver o efeito contrário –os democratas podem abandonar a tentativa de atrair esse eleitorado conservador hispânico, na convicção de que é impossível conquistá-lo.

Como diz uma das pessoas próximas à campanha, o ditador venezuelano não tem amigos em Washington, nem republicanos, nem democratas. Entre os democratas, entretanto, existe a constatação de que o governo americano já usou muitos dos instrumentos disponíveis para pressionar por um retorno à democracia na Venezuela —com pouco sucesso.

As ações conseguiram complicar a situação de pessoas próximas ao círculo de poder de Maduro, mas não conseguiram empoderar a oposição. Assim, a estratégia terá de ser revista.

Outras explicações para o desempenho morno democrata foram a agressiva operação de mobilização de eleitores republicanos às vésperas do pleito, e a resiliência do culto a Trump e o trumpismo.

O republicano manteve grande apoio entre homens brancos sem ensino superior (64% apoiam Trump, e 34%, Biden, diante de 64% para Trump, e 28% para Hillary). Também houve aumento de popularidade entre evangélicos brancos —81% afirmaram ter votado em Trump, e 17%, em Biden.

Em 2016, foram 77% para o republicano, e 16% para Hillary.

Fonte: Folha de São Paulo

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