Controle remoto

Minha mãe é o tipo de pessoa tão prestativa, mas tão prestativa, que evito ao máximo lhe pedir qualquer favor. Sei que ela vai querer me ajudar tanto, mas tanto, que vai acabar me dando mais trabalho.

Uma vez, depois de me perguntar insistentemente se eu precisava de alguma coisa pra Ritinha, caí na besteira de dizer: “Troninho musical”. Naquela mesma noite começaram a chegar as pesquisas em português, inglês e espanhol sobre “o melhor assento para o desfralde”. Universidades do mundo todo discutindo se o nenê seria mais ou menos neurótico, num futuro próximo ou longínquo, se defecasse em um buraco que, mediante o recebimento das fezes, o agraciasse ou não com melodias festivas.

Se eu respondesse: “Esquece, mãe, por favor”, ela se irritava e me mandava ainda mais fotos e links de opções sanitárias infantis. Se eu respondesse: “Então compra qualquer um”, ela me mandava o passo a passo de sua investigação que a levou a crer que existe um novo golpe na praça: lojas que mentem ter o produto no estoque para receber o dinheiro e depois vêm com a desculpinha de que você pode “trocar” por outro item. Durante toda aquela semana (até que eu entrei numa Alô Bebê e comprei um penico de onze reais), eu devo ter visto mais privadinha de criança do que já vi vasos sanitários em toda a minha vida.

Teve uma outra vez em que pedi a mamãe que pegasse minhas homeopatias em uma farmácia de manipulação perto da sua casa. Pra quê? Ela brigou com a atendente, não foi com a cara do lugar, deu um Google e descobriu o nome dos sócios, viu a foto deles no Facebook e pensou “olhar de gente que esconde algo”, levantou certidões negativas e descobriu ações trabalhistas. Passou o dia me mandando áudios sobre sua tese de que empresários brasileiros ricos associados a discursos naturebas são o pior tipo que existe. Enfim, o meu tratamento era para estresse e já estava dando errado antes mesmo de começar.

Esta semana ela veio à minha casa e percebeu minha ginástica para abaixar o volume da televisão. O botãozinho de menos do controle remoto não estava funcionando. Na hora seus olhos brilharam: “Você precisa de ajuda?”. E o pior é que, sempre que ela me pergunta isso, o meu primeiro impulso é me atirar no chão nua, ficar em posição fetal e chorar: “Sim, peloamordedeus, eu estou morta, que cansaço, eu não tenho ninguém, por que a infância acabou? Você me acha bonita?”. Mas 99,9% das vezes (mentira) eu só respiro fundo e digo: “Estou ótima, tudo sob controle, não preciso de nada, e você?”. Ela não se conformou e, algumas horas depois, me mandou mensagem informando que já estava com a Samsung na outra linha e precisava do código que fica atrás da TV. Eu falei que estava em reunião. Ela insistiu: “É simples, só me mande o código”. Eu parei de responder porque de fato estava em uma reunião. Ela mandou 27 pontos de interrogação e 32 pontos de exclamação. Eu escrevi: “Amanhã vemos isso”, e ela rebateu em caixa-alta: “MANDE O CÓDIGO QUERO TE AJUDAR”, e eu retruquei que a TV estava presa na parede, não tinha como ver código nenhum. Silêncio. Achei que estava resolvido. Até a atendente da Samsung me ligar a pedido da minha mãe para me explicar como ver o código mesmo com a TV presa na parede.

Minha mãe tem 75 anos e, meu Deus, como a gente briga! Mas eu choro de convulsionar no banho quando penso que um dia vou ficar sem ela. Eu tenho pavor desse momento desde quando entendi, lá pelos cinco anos, que isso aconteceria. Estou agora mesmo chorando de dar muco até no meu couro cabeludo. Mãe é um troço agudo, urgente e lindo demais.

Fonte: Uol – Cotidiano

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