Controle da pandemia e economia vão definir futuro do mandato de Biden

A campanha vitoriosa de Joe Biden tem na sua origem uma aliança improvável entre dois grupos de democratas com visões opostas do futuro do país.

Para os apoiadores incondicionais de Barack Obama, Donald Trump sempre foi visto como uma pane no sistema que nunca deveria ter acontecido. Bastaria que, segundo esse grupo, Biden retomasse o governo interrompido em 2016 para colocar os Estados Unidos de volta aos trilhos.

O outro grupo acredita que Trump e Obama fazem parte da mesma trajetória histórica. O fracasso do presidente democrata em reduzir as desigualdades agravadas pela crise de 2008 criou as condições para a candidatura de um salvador da pátria.

Representada por figuras de grande densidade política, como Alexandria Ocasio-Cortez, a jovem deputada capaz de orientar o debate legislativo pelas redes sociais, a chamada ala esquerda do Partido Democrata terá força inédita no próximo governo. Biden é o primeiro a saber que a mobilização dos jovens nunca teria sido possível sem a turma organizada por seu velho amigo, o socialista Bernie Sanders.

Manter a coesão da base democrata será imprescindível para Biden, um presidente sem lua de mel. Os imensos desafios imediatos de sua gestão —​o controle da pandemia e a estabilização da economia— vão definir o futuro do seu mandato.

Felizmente, um dos principais argumentos a favor do candidato Biden sempre foi a capacidade de assumir o volante em andamento. O nativo da Pensilvânia passou grande parte dos últimos 40 anos transitando entre os corredores do Senado e da Casa Branca.

Ele poderá contar com a experiente equipe da administração Obama, que anseia pelo regresso a Washington depois de ter passado grande parte dos últimos quatro anos vociferando contra Trump em debates na televisão e em colunas de jornais.

Antes de chegar à Presidência, Trump mal sabia ler uma folha de impostos, Obama era um mero senador júnior do estado de Illinois e George W. Bush parecia incapaz de terminar um raciocínio sem a assessoria de seu vice, Dick Cheney. Biden é talvez o presidente eleito mais preparado desde Lyndon Johnson.

O paralelo é tentador porque, tal como Johnson, Biden também é um presidente acidental. Políticos veteranos, ambos pareciam destinados a passar ao lado da Presidência, mas terremotos —a morte de Kennedy e a eleição de Trump— os colocaram inesperadamente no Salão Oval.

Todos esperavam de Johnson um governo de transição, mas ele transformou os EUA com a Grande Sociedade, programa marcado pela expansão do seguro de saúde e a “guerra contra a pobreza”.

A iniciativa só foi possível pelo contexto extraordinário e pela habilidade única do presidente de sacudir os irascíveis legisladores. Nas próximas semanas, Biden tentará transmitir a mensagem de que os EUA estão prestes a regressar à normalidade.

Mas a velha raposa sabe que a sua Presidência está condenada a ser extraordinária.

Fonte: Folha de São Paulo

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