Com Biden, Brasil teria de encontrar nomes menos atados a slogan de Trump, diz economista

O governo Joe Biden vai se ocupar de relações com a China, da reconstrução dos elos com as democracias europeias, com o Irã —o Brasil decerto não é uma prioridade.

Ainda assim, com a vitória do democrata, o país precisaria de um ministro de Relações Exteriores menos comprometido com os slogans do governo de Donald Trump, diz José Alexandre Scheinkman, um dos maiores economistas brasileiros, ora professor da Universidade Columbia, que vive
faz mais de 40 anos nos EUA.

Scheinkman afirma acreditar que Biden deve dar prioridade a medidas de controle dos efeitos da pandemia, na área de saúde e de auxílio dos governos locais, em crise financeira. No entanto, terá dificuldades de passar reformas mais ambiciosas caso os republicanos confirmem sua maioria no Senado.

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Com Biden eleito, quais problemas imediatos deve enfrentar em assuntos como tributação, comércio exterior, déficit fiscal, organizações multilaterais, por exemplo? Biden tem muito a fazer, mas quanto ao que ele conseguirá fazer depende do resultado do Senado. Ele precisa de aprovação das duas Casas para mudar os impostos ou lidar com o déficit. A verdade é que, com um presidente republicano, os senadores republicanos não se preocupam com o déficit, mas se o Executivo é democrata viram todos “deficit hawks” [“falcões do déficit”, defensores duros ao menos de um equilíbrio entre despesa e receita do governo].

Ainda seria possível ocorrer uma influência maior da ala esquerda dos democratas no programa concreto de um governo Biden? As medidas mais urgentes: lidar com a pandemia, salvar o Obamacare [o programa aprovado no governo de Barack Obama para facilitar o acesso ao seguro de saúde] e ajudar os governos estaduais e das grandes cidades, que estão em grande parte com sérios problemas financeiros, resultantes da pandemia. São unanimidades entre os democratas. As discussões serão entre democratas e republicanos se o Senado ficar em mãos republicanas.

​​As divisões econômicas, sociais, políticas e ideológicas não vão desaparecer tão cedo nos EUA. Em que medida a polarização pode ser um problema para o governo Biden? Trump tem alimentado essas divisões, enquanto Biden vai tentar arrefecê-las. Como disse antes, essas divisões devem afetar menos os democratas no curto prazo porque há unanimidade sobre os programas mais urgentes.
Mas depois a esquerda democrata brigará por medidas mais radicais, Medicare for All no lugar do Obamacare, por exemplo [Medicare é o programa de seguro saúde federal, quase inteiramente dedicado a pessoas com mais de 65 anos].

Muito se fale da influência da mudança de governos na relação dos EUA com o Brasil, mas em geral tal efeito é difícil de avaliar, mesmo decorrido um mandato presidencial. O que se pode dizer, no caso de um governo Biden? O governo Biden terá preocupações maiores que o Brasil por um tempo, como restaurar as alianças que Trump avariou, principalmente com as democracias europeias, o acordo com o Irã e as tensões com a China. Mas o Brasil precisará definir interlocutores menos comprometidos com o movimento “Make America Great Again” do que o atual chanceler [Ernesto Araújo, ministro
das Relações Exteriores].

Fonte: Folha de São Paulo

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