China, Russia e Irã não devem tentar tirar proveito da crise na transição presidencial dos EUA

Donald Trump ainda se recusa a admitir que perdeu a eleição americana –uma reação que condiz com sua imagem, mas não com a imagem da democracia americana. Será que os EUA vão ingressar em alguns meses inusitados de disfunção política enquanto a transição presidencial se processa? E será que adversários do país vão procurar tirar vantagem do caos interno?

A China não o fará. Os líderes chineses têm plena consciência de que a atitude de linha dura contrária à China é um dos únicos pontos de convergência entre políticos em Washington hoje em dia, mas alguns políticos chineses nutrem a esperança de que Pequim possa trabalhar mais construtivamente com um presidente Joe Biden.

E, se bem que haverá áreas de colaboração futuras –sendo a mudança climática a maior delas–, isso não modifica o fato de que a trajetória maior entre os EUA e a China continuará a ser negativa enquanto as duas superpotências econômicas continuarem a competir no comércio e na tecnologia, mesmo sob uma administração Biden. Mas a China é estratégica demais para agitar as coisas desnecessariamente muito antes da hora; ela não fará nada por enquanto.

A mesma coisa se aplica à Rússia, que exerceu um papel tão grande nas eleições americanas de 2016 mas mal fez sua influência ser sentida desta vez. Não foi por acaso: estes últimos quatro anos mostraram à Rússia que ter um fã genuíno no Salão Oval não necessariamente se traduz em uma política americana favorável em relação ao Kremlin.

Assim, Moscou teve ainda menos incentivo para interferir desta vez. Quando se inclui na conta o fato de que o Kremlin também está envolvido atualmente, em graus diversos, em Belarus, na Ucrânia, Síria, Líbia e numa trégua recentemente mediada entre a Armênia e o Azerbaijão, a última coisa que Moscou precisa agora é irritar a administração americana que começará em breve, em troca de poucos ganhos concretos.

E há o Irã; tirando os próprios EUA, o Irã é o país que tinha mais interesse direto no resultado desta eleição presidencial americana mais recente. Teerã tinha uma preferência clara por uma vitória de Joe Biden, pelo fato de estar precisando tão desesperadamente de um alívio econômico.

Não é garantido que o Irã receba esse alívio de uma administração Biden, já que reingressar no JCPOA [acordo no qual o Irã se comprometeu a reduzir seu programa nuclear, e do qual o governo Trump se retirou em 2018] ainda é uma proposta complicada para ambos os lados neste ponto, devido a seus respectivos cálculos políticos em casa. Mas é certo que Teerã está torcendo por um relacionamento mais construtivo com os EUA, o que significa que não fará nada para incomodar a América neste momento.

Contudo, embora ainda haja alguns adversários dos EUA que esperam para ver o que a próxima administração fará, um ou outro deles pode ceder à tentação de arriscar sua sorte. A Coreia do Norte é uma candidata perfeita: Pyongyang tem a tendência a lançar iniciativas de provocação para melhorar sua posição de negociação nos momentos em que todos estão com a atenção voltada a outra coisa –incluindo às eleições americanas.

Depois de quatro anos de promessas trumpianas e poucos ganhos concretos decorrentes, o líder norte-coreano Kim Jong-un talvez decida que os próximos meses serão o momento perfeito para exibir sua influência, redefinir o campo de jogo e lembrar a Washington que seu país merece um lugar de destaque na agenda de política externa do próximo governo dos EUA. Não se surpreenda se assistirmos a testes de alguma arma grande norte-coreana nos próximos meses, especialmente se Kim recear que Biden não lhe dê afeto e atenção suficientes.

Outro país que pode concluir que tem pouco tempo a perder esperando pela administração Biden é a Turquia. Enquanto a economia nacional continua a deteriorar –fato ressaltado pela demissão, nesta semana, do diretor do banco central e do ministro das Finanças–, o presidente turco Recep Tayyip Erdogan vem ficando mais e mais agressivo no exterior, incluindo no Oriente Médio e no Cáucaso, isso sem citar o envolvimento turco de longa data na Síria e na Líbia.

Todas essas iniciativas e suas consequências assustaram a União Europeia, para o deleite de Erdogan e a aparente indiferença de Trump. Mas, quando chegar ao poder, o futuro presidente Joe Biden será muito mais propenso a tomar o partido de Bruxelas e adotar uma linha mais dura contra a Turquia. Essa perspectiva pode deixar Erdogan ainda mais desesperado e disposto a correr riscos no curto prazo.

Os anos de Donald Trump na presidência forçaram muitos países a repensar sua abordagem em relação aos EUA e ao mundo. Alguns deles vêm lidando com o desafio melhor que outros. A era de Joe Biden que desponta no horizonte vai forçar países a adaptar-se a uma nova realidade –desde que eles (e os EUA) consigam superar os próximos três meses. Veremos como isso vai ser.

Fonte: Folha de São Paulo

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *