Carta aberta ao Senhor Ministro da Educação, Abraham Weintraub; Por Marcelo Cardoso Souza

Peço lhe desculpas pelo “Senhor”, é que nunca fui muito bom em pronomes de tratamento, mas acredito que não se importará já que também não é de seu perfil utiliza-los. Esta semana que passou, o Senhor reafirmou que mesmo diante da pandemia manteria, a todo custo, o calendário de 2020 do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio).

Conselheiros educacionais, entidades estudantis, políticos e personalidades questionam essas razões abordadas pelo Senhor, alegando que manter o calendário diante de uma epidemia de escala global, com o Brasil caminhando para ser o epicentro desta, com as escolas públicas, particulares e universidades fechadas como medida de isolamento devido ao risco de transmissão do Covid-19 seria no mínimo um absurdo lamentável. Mas o Senhor não pensa assim, diz constantemente que “adiar o Enem vai prejudicar os mais pobres e beneficiar as universidades privadas”. E o Senhor insiste, dizendo que basta ao estudante de escola pública “continuar estudando online, se preparando em casa, porque essa crise é temporária e quando chegar a época do Enem ele ocorrerá, porque é uma grande competição”.  Sinceramente, espero que nesta parte o Senhor tenha tentado fazer uma péssima piada.

Gostaria de saber onde e como nossos alunos de escola pública estão se preparando para essa “competição”. Caso assista TV, nas ultimas semanas as escolas públicas e privadas estão fechadas. As instituições particulares adotaram, mesmo que precariamente e de forma improvisada, a educação a distância (EAD) e alguns estados tentam seguir essa mesma ideia. Mas são realidades diferentes. O ensino a distância não contempla todos os alunos, principalmente aqueles que vivem realidades mais pobres. Registro aqui minha incerteza se o Senhor sabe disso.

A preparação para o Enem se torna, com o isolamento, muito mais excludente e desigual do que já é normalmente. Segundo o IBGE, um em cada quatro jovens não tem acesso a internet em casa. Isso corresponde a quase 50 milhões de pessoas e pode não parecer, mas é muita gente. Nas zonas rurais o acesso a internet é inferior a 40% da população jovem, e nem estou citando aqui a ausência de materiais didáticos necessários para o que se considera um bom aprendizado fora do ambiente escolar. E se este jovem possui meios, como um notebook por exemplo, ele deve dividir com outros da casa o que torna impossível a regularidade da educação. Mas claro, o Senhor já sabia disso.

Por que ir na contramão dos fatos? Porque manter o Enem, enquanto países da Europa e da Ásia (França e China, por exemplo) estão adiando seus vestibulares mais importantes? Porque manter o Enem Senhor Ministro? É difícil entender a pressão para se manter algo que todos os demais setores envolvidos questionam. É birra? Saturno e Júpiter em Aquário o perturbam e retêm sua ascensão para 2021? É falta de um plano B?

O Senhor já se perguntou quantos desses jovens precisam de terapeutas e psicólogos devido ao estresse do isolamento e jamais terão? As condições de luto familiar em que alguns vivem diante dessa pandemia? Como estudar com o desemprego, a fome e a ausência de perspectiva dividindo à mesa? Não Senhor Ministro, não há competição e sim a confirmação de que não adiar o Enem neste momento será muito mais injusto com os Negros, os Índios e Brancos pobres que almejam fazer uma universidade nesse país.

Ameaçar com a anulação de cotas, anulação do Prouni e do Fies só deixa claro que não há planos e nem mesmo ideias e sim “birras” de quem nunca ouviu a opinião de Professores e Institutos Educacionais e só se deslumbra com um poder limitado e temporal.

Como será a Educação para TODOS!? Como as famílias dilaceradas por perdas de parentes e amigos, milhares de jovens sem acesso a internet ou WIFI, desempregos e recessão que bate a porta irão focar em uma educação paliativa? Sinceramente, Senhor Ministro, eu não sei se o nosso problema educacional na atualidade é devido a pandemia ou a sua presença na liderança desta pasta. Por favor, justifique sua resposta.

(*) Marcelo Cardoso Souza é Historiador formado pela UFMT – CUR e Professor da Rede Pública e Privada em Rondonópolis.

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