‘Cagão’, ‘viado’, ‘cidadão’: quem tem medo do coronavírus?

É certo que estamos todos fartos do distanciamento social, cansados de desinfetar tudo o que entra em nossas casas e incomodados com esse pedaço de pano que nos encobre o rosto e nos sufoca. Nada disso é agradável, mas é o que está a nosso alcance para tentar evitar a contaminação pelo coronavírus. Parece óbvio? Não para os valentões da cloroquina.

A antropóloga Mirian Goldenberg hoje relata, em sua coluna “Você já foi xingado de cagão?”,  episódio em que seu marido foi assim chamado por estar seguindo as regras de precaução indicadas pelos médicos epidemiologistas. Há alguns dias, a jornalista Mônica Bergamo divulgava nota de bastidores, segundo a  qual o presidente Jair Bolsonaro costumava dizer diante de visitas que usar a máscara de proteção era “coisa de veado” (ou “viado”, com “i”, como diz o colunista Renan Sukevicius em seu blog, mostrando que o uso da letra “i” é uma espécie de reforço do preconceito). O “cagão” e o “viado”, no ideário machista que subjaz ao discurso desses valentões, são menos machos: estão com medo de enfrentar o “virusinho” que provoca uma “gripezinha” ou um “resfriadinho”.

Engana-se, porém, quem pensa que só homens estejam sendo desafiados a mostrar sua macheza e sair por aí sem máscara, sem se distanciar, sem tomar precaução. O mesmo discurso da valentia é usado entre mulheres.

O relato de uma amiga que foi ao salão de cabeleireiro é ilustrativo. Preocupada com as regras de distanciamento e higiene, ela foi alvo de gracejos e chamada de “fraca”. A manicure, embora usasse a máscara, foi logo avisando que seus parentes, que moram no Piauí, foram testados, ficaram sabendo que já tiveram essa doença “faz tempo” e nem perceberam – e, aliás, já têm anticorpos. Acrescentou ainda que quem fica doente é “quem tem outros problemas de saúde” e que a morte acontece “quando chega a hora”. E foi além: com certo orgulho, disse que “os pobres” não estão preocupados com isso.

O que temos, então, neste momento de pressão pela volta da atividade econômica, que demanda os velhos hábitos de consumo, é um chamado ao “brio” das pessoas. Se você não sai de casa, não vai consumir, passear no shopping, conhecer os últimos modelos da coleção de inverno nas lojas, frequentar o salão de beleza, a academia etc. etc., você é fraco, “viado”, “cagão” (ou “cagona”).

É assim, no varejo, que as mensagens (e, sobretudo, o exemplo) do presidente da República repercutem. Bolsonaro é o valentão, que, com cloroquina na cartucheira, vai combater a gripezinha, que agora, se for verdadeiro o resultado de seu último exame, também o acometeu. Não à toa já avisou que está tomando o medicamento milagroso, cujos estoques precisa desovar. As suas atitudes, considerado o conjunto da obra, não nos transmitem credibilidade, motivo pelo qual não seria surpresa um dia descobrir que o resultado positivo foi apenas parte de uma peça de marketing.

De qualquer modo, a manicure, como tantas outras pessoas, acredita ter vindo de uma linhagem de gente forte, que, acostumada a enfrentar dificuldades, já tem anticorpos. Vagamente religiosa, crê que a morte seja assunto de Deus. Então, é só deixar de “frescura” e voltar a fazer tudo como antes, no melhor estilo “morra quem morrer” – afinal, se assim for, Deus terá sido o responsável.

Por outro lado, há os valentões empoderados pela suposta “classe social” a que pertencem, caso do “engenheiro civil, formado”, que se recusa a agir como cidadão. Não há como saber se aquela mulher que aparece no vídeo conhece o significado da palavra “cidadão”. Caso consultem o dicionário “Houaiss”, ela e o companheiro obterão esta definição: “indivíduo que, como membro de um Estado, usufrui de direitos civis e políticos garantidos pelo mesmo Estado e desempenha os deveres que, nesta condição, lhe são atribuídos”.

De  qualquer forma, sua atitude vergonhosa diante de um agente da Vigilância Sanitária, que tentava zelar pela saúde do conjunto da sociedade, deixa claro que não estão mesmo dispostos a agir como cidadãos. Como se vê, o combate à pandemia é mais que um assunto sanitário.

Dito isso, é evidente que tem tudo para ser catastrófica a reabertura do comércio, das academias, dos parques etc. Na prática, se a precaução é só uma opção (a dos “viados”, “cagões” e “cagonas”), não há como garantir segurança a ninguém — principalmente diante da  aliança macabra do coronavírus com os valentões da cloroquina.

Fonte: Folha de São Paulo

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