As cidades do pós-pandemia

As eleições municipais são um momento crucial para que candidatos, candidatas e eleitorado mostrem que aprenderam as lições da Covid-19 e que estão prontos para repensar sua gestão. As formas de gerir os municípios e as prioridades de suas lideranças serão muito impactadas pelo pós-crise. As relações sociais e o uso do espaço público nas cidades mudaram profundamente desde o início da pandemia. Parte importante dessa nova realidade deve permanecer mesmo quando, enfim, o Brasil tiver superado a devastadora crise sanitária e econômica.

No mundo inteiro, o coronavírus está exigindo a busca por novas soluções urbanísticas. Aqui, o desafio será múltiplo. O lamentável destaque do Brasil no número de casos e de óbitos mostra, até aos mais desatentos, que desigualdade e inabilidade política são questões de vida ou morte. Lidar com o aprofundamento dos nossos abismos é tarefa para ontem. Porém, isso não isenta os eleitos de se juntarem às reflexões mundiais sobre a construção de cidades do futuro. Uma agenda municipal consistente terá de contemplar essas diferentes dimensões.

Os participantes da corrida eleitoral terão que lidar com as questões de saúde, educação, trabalho, moradia e transporte que foram agravadas. As cenas de familiares em busca de leitos, ônibus lotados e moradores de casas aglomeradas impedidos de praticar isolamento social não podem ser esquecidas. Tampouco os relatos de crianças sem acesso à internet, ou mesmo à comida, com a suspensão das aulas. As consequências de medidas de abertura tomadas ignorando bases científicas também prometem estar vivas na memória.

A plataforma daqueles que pretendem ocupar prefeituras e cargos nas Câmaras municipais precisa trazer respostas para esses desafios urgentes. Serão bem-vindas políticas de saúde que saibam dar bom destino aos recursos escassos, como a valorização da saúde primária e dos agentes comunitários. Estratégias urbanísticas para diminuir a densidade populacional, descentralizar e ampliar parques e áreas de lazer são necessárias. É indispensável também pensar em como não deixar pessoas para trás com a virtualização de serviços.

Além de acertar nas questões que foram tratadas de maneira inadequada ou até leviana por anos, as novas lideranças precisam fazer sua parte para atingir as metas climáticas e de desenvolvimento sustentável acordadas internacionalmente. Essas metas estão alinhadas com os desejos de uma população que clama por mudanças e que se organizou em impressionantes redes de solidariedade que devem ser potencializadas no pós-Covid-19.

E é esse compromisso que já dá espaço para debates e ações em outros lugares do mundo sobre as cidades do futuro. Elas incluem mais áreas verdes que atendam necessidades de saúde física e mental dos seus habitantes. Nelas, haverá a interdição de ruas para abrir espaço para pedestres e ciclistas. E a reforma de prédios públicos e privados para diminuir gastos energéticos e melhorar a ventilação com a abertura de janelas.

Está claro que a centralidade das lideranças das cidades ganhou nova dimensão. Os próximos anos serão de testes sucessivos do nível de preparo dos governos locais. Eleitores, prefeitos e vereadores comprometidos com o presente e com o futuro, precisam mostrar que são capazes de dar respostas melhores do que as que demos até aqui. Mudar nossas cidades tem o poder de prevenir novas doenças, melhorar a qualidade de vida para todos e abrir espaço para o exercício de uma cidadania muito mais ativa e responsável.

Fonte: Uol – Cotidiano

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *