Aposentado, David Moura rechaça críticas, avalia carreira e projeta o futuro: “realizado”

Arte/Rodinei Crescêncio

Judoca Davi Moura

Dono de uma linda trajetória no judô, o cuiabano David Moura anunciou na semana passada a sua aposentadoria dos tatames aos 34 anos de idade. Praticante do esporte desde os seis anos por influência do pai, Fenelon Oscar Muller, grande judoca da seleção brasileira, David Moura encerra a carreira com um currículo recheado de conquistas em Jogos Pan-Americanos, campeonatos mundiais e títulos de peso. Em entrevista especial ao , o agora ex-atleta afirmou que está bem fisicamente, mas não se vê mais treinando em alto rendimento ou na busca por resultados. O judoca relembrou e avaliou sua trajetória nos tatames, comentou sobre o apoio essencial dos seus pais e minimizou as críticas por não ter conseguido competir nos Jogos Olímpicos. Além disso, o mato-grossense citou conquistas marcantes, elogiou Rafael Silva, o Baby, e opinou sobre o atual apoio do Governo do Estado nas bases esportivas. Por fim, o judoca cuiabano falou sobre os planos futuros e agradeceu quem sempre o apoiou nas competições pelo mundo a fora.

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Quando surgiu o interesse pelo Judô?

O judô entrou na minha vida desde muito cedo, meu pai foi atleta da seleção e quando ele parou, decidiu abrir uma academia em Cuiabá e eu nasci dentro dessa academia vendo meus irmãos treinarem. Me apaixonei pelo judô e comecei a praticar com meus cinco, seis anos de idade.

Como foi a sua trajetória no judô até chegar no profissional? Qual a influência do seu pai Fenelon Oscar Muller?

Meu pai foi minha inspiração, um ídolo, quando desde criança eu me espelhei nele e sempre tentei imitar muita coisa que ele fazia. Sem dúvida nenhuma foi nele o início de tudo. Acabei fazendo judô como uma brincadeira até os 15 anos de idade, foi quando tive uma lesão no joelho e precisei fazer uma cirurgia de ligamento cruzado. Fiquei 3 a 4 quatros afastado do judô, nesse meio tempo fiz vários esportes, até uma lutinha de boxe, sempre malhando e treinado bastante. Voltei a treinar judô com meus 19 anos, quando vi que levava jeito no negócio e comecei a me dedicar cada vez mais. Em dois que eu voltei a treinar, no terceiro eu entrei para a seleção brasileira, e fiquei até esse momento.

Teve algum momento marcante entre vocês dois e o esporte?

São muitos. Em 2019 eu lutei o Grand Slam de Brasília, onde estavam presentes o meu pai e meu filho, e era justamente o Dia dos Pais. Eu consegui fazer uma grande final e conquistei uma medalha. Foi um momento muito marcante para mim e acabou sendo um presente em conjunto para mim.

E da sal mãe?

Minha mãe é a nossa general. Sempre me apoio incondicionalmente na minha carreira e na minha vida. É uma conselheira para mim, um Porto Seguro.

Passou por dificuldades?

Todo atleta de alto rendimento viver altos e baixos na carreira, eu consigo sempre ver a vida por um ângulo positivo, mas o fato de não ter ido a Olimpíada em 2016 no Brasil, e agora no final da minha carreira também não ter conseguido minha vaga olímpica para Tóquio, foram momentos de baixas, mas eu consigo olhar para tudo que eu vivi e passei de forma muito legal e positivo e digo que sou muito realizado.

Rodinei Crescêncio

Judoca Davi Moura entrevista especial

Porque decidiu se aposentar dos tatames aos 34 anos de idade?

O atleta paga um preço muito alto para se dedicar ao esporte e dentro do meu coração eu percebi que não estaria mais disposto a pagar esse preço

David Moura

É sempre um conjunto de coisas, o atleta paga um preço muito alto para se dedicar ao esporte e dentro do meu coração eu percebi que não estaria mais disposto a pagar esse preço por mais três anos, fisicamente já estava ficando difícil, e as viagens também já estavam ficando mais complicadas, porque eu estou com vontade de ficar mais com a minha família. Pretendo ter mais filhos e para isso preciso estar mais presente. Acho que esse conjunto de ópera fez a minha decisão de me aposentar das competições para poder me dedicar às outras coisas na vida. Estou me sentindo muito bem e acho que tomei a decisão certa.

A pandemia da covid-19 contribuiu para você tomar essa decisão?

De certa forma sim, porque o ciclo olímpico de Tóquio foram cinco anos de preparação, então a gente ganhou um ano a mais para se preparar. Acho que quando cheguei no final eu já estava um pouco desgastado, percebendo que já estava chegando próximo de encerrar a minha carreira.

Como você avalia essa longa trajetória no Judô?

Na minha trajetória eu olho tudo para o lado positivo. Se você pensar, que um garoto de Cuiabá, faixa roxa, voltou a treinar judô, conseguiu alcançar o topo do mundo em 2017, fez a final do campeonato mundial, além de outras importantes conquistas na carreira, claro que ao longo do tempo também teve as derrotas, mas vejo que alcancei um nível bom e sou muito grato a Deus por ter vivido isso.

Qual o sentimento de encerrar a carreira sem ter participado de nenhuma edição de Jogos Olímpicos?

Olimpíada é sonho de todo atleta, mas não é a única coisa. Eu, por exemplo, avaliando minha vida e carreira, conheci 45 países diferentes, então só o fato de através do esporte eu conhecer o mundo, já teria valido a pena, claro que não para por aí, foram muitas amizades também construídas no Brasil e no mundo, que vão durar para sempre.

Rodinei Crescêncio

Judoca Davi Moura entrevista especial

Como lidar com as críticas da minoria que te julga por não ter conseguido alcançar o patamar de atleta olímpico?

Acho que a melhor resposta seria: pega essa crítica e faz alguma coisa na sua vida.

David Moura

Sinceramente, nessa vida de alto rendimento a gente aprende muito rápido a não ligar pra opinião dos outros que não estão próximos. Então o cara que não acorda comigo, não treina comigo, também não tem o direito de me criticar. Acho que a melhor resposta seria: pega essa crítica e faz alguma coisa na sua vida. A gente encerraria o assunto assim. Realmente não fui a uma olimpíada, gostaria de ter ido, mas eu acho que isso não precisa ser um fardo ou uma frustração. Sou grato demais pelas conquistas que tive.

Qual das suas conquistas você considera a mais importante de todas?

Os Jogos Pan-Americanos de 2015 foram transformadores na minha vida, pois ganhei uma visibilidade que eu não tinha antes e muitas coisas começaram a acontecer a partir daquele momento. E como atleta, meu maior orgulho foi ter feito a final do Campeonato Mundial em 2017, que foi uma luta duríssima contra o francês, acabei perdendo, mas é uma medalha que me enche de orgulho.

O que falar do Rafael Silva, o Baby, que sempre foi seu concorrente direto no judô brasileiro?

O Baby é um dos grandes responsáveis pela minha evolução, o fato de eu ter ele sempre na minha frente, com o objetivo a ser batido, um cara que eu precisava vencer para ter meu espaço para competir em Mundial, Jogos Americanos, nunca me deixou descansar. Então sempre treinei muito sabendo que eu tinha um grande adversário a ser batido dentro do Brasil. Acho que isso fez nós dois melhores atletas. Só posso ter gratidão em relação a isso. Ele foi essencial tanto na minha vida como na minha carreira.

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Quem é ou quais são suas referências no judô?

Minha primeira referência sempre foi meu pai, meu grande ídolo. Quando me tornei profissional conheci o meu segundo maior ídolo, o Flavio Canto, tive a oportunidade de viajar e lutar com ele na seleção, fomos Vice-campeões mundiais na Turquia em 2010, e quando se aposentou, tornou-se o meu técnico no judô.

Agora aposentado, quais são os projetos futuros?

Agora o plano é ficar bastante com a família. Curtir um pouquinho a vida de não ser atleta, e me dedicar ao Instituto Reação para ajudar a molecada a realizar o sonho deles.

Como funciona e qual a finalidade do Instituto Reação?

O nosso lema é formar faixas pretas dentro e fora do tatame. Através do judô nós ensinamos disciplina, valores, honra, coragem, e a gente acredita que diariamente trabalhando esses fatores vamos conseguir transformar esses jovens em cidadãos faixas pretas. Temos uma estrutura maravilhosa, não só física, mas como  pessoa boas, temos educadores, ótimos professores de judô, psicólogos, assistentes sociais, então a gente oferece um tratamento especial para cada criança, e vemos esse impacto na vida deles.

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Rodinei Crescêncio

Judoca Davi Moura entrevista especial

Qual a sua opinião sobre o atual apoio do Governo do Estado nas categorias de bases esportivas em MT?

Tem muito para melhorar, acho que o governo do Estado está fazendo um ótimo trabalho, porque o projeto Olimpus é essencial na vida desses atletas. O estado perdia muitos talentos porque antes o atleta precisava parar para trabalhar e buscar o sustento da família, e a bolsa do projeto tem ajudado muito atualmente. Futuramente vamos ver grandes campeões mato-grossenses por conta desse apoio, sem dúvida.

Qual a sua visão sobre o futuro do judô em Mato Grosso? E no país?

Eu como atleta nunca achei que estava pronto, sempre imaginava que tinha que melhorar .O judô no Brasil também precisa melhorar, com mais investimentos nas base e, principalmente, quanto mais a gente conseguir reunir grupos de jovens para treinar judô em mais locais do país, vamos ter muito mais oportunidade de penetrar um diamante e conseguir mais campeões futuramente.

Quais conselhos você dá para aqueles que têm interesse em praticar judô?

Se não for aqui com a gente, busque uma academia, uma escola ou algum outro lugar que tenha judô, porque assim como o judô transformou a minha vida, eu tenho certeza absoluta que vai transformar a vida de qualquer um que também praticar a arte marcial. O espere ensina muito os valores que ajudam muito na vida onde quer que você vá depois. Meu pai teve muito alunos que hoje eu encontro nas ruas e falam: seu pai transformou minha vida com o judô, eu aprendi coisas ali que levarei para sempre, que me ajudaram a me salvaram de momentos ruins. então eu tive um pai maravilhoso e uma mãe maravilhosa, e mesmo assim o judô transformou a minha vida para muito melhor. Não tenha dúvida que o judô vai te transformar.

Gostaria de deixar alguma mensagem para quem sempre te apoiou nos tatames?

Só carinho e gratidão, agora que anunciei minha aposentadoria, tenho a noção do quanto as pessoas acompanhavam e torciam por mim. Isso pra mim é sensacional, acho que isso me deu muita força e esse carinho é impagável. Consegui ser um espelho para essa molecada. Beijo para todo mundo e obrigado pelas madrugadas em claro torcendo por mim.

Fonte: RDnews

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