Adãozinho da Harpa, uma lenda viva em MT

Arte/Dayanne Dallicani

Colunista Henrique Maluf

O Mestre Adão Cardozo, ou Adão da Harpa, ou Adãozinho da Harpa – como é carinhosamente chamado em Cáceres – é um nome que sobeja nas veias do Pantanal mato-grossense. Com 64 anos de idade é um homem tímido, misterioso, de baixa estatura, olhar distante e de poucas palavras. Porém quando o mestre Adão se torna gigantesco quando começa a dedilhar as primeiras melodias na Harpa, qualquer pessoa que estiver por perto é imediatamente tomado por um sentido que os conecta às raízes da música de fronteira, do Rasqueado de Fronteira, aqui formatados pela viva influência platina que percorreu o Rio Paraguai e veio constituir a música tradicional matogrossense.

Adão é paraguaio, mas foi registrado em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, algo que era muito comum, afinal essa transculturação entre a cultura paraguaia e a brasileira é muito mais forte e viva naquela região. Ele começou tocando com Tchille Gomez, um paraguaio que tocava nas noites de Campo Grande, principalmente na Cabana Gaúcha, Adão era prodígio nesse instrumento tão peculiar, não demorou muito em se destacar e ganhar espaço. Com o passar dos dias e vendo a complexidade do instrumento decidiu estudar e teve como professor o maestro Negro Centurion, um grande nome da Harpa Paraguaia e um dos responsáveis pela difusão da música paraguaia no Brasil.

1985 foi o ano que ele se mudou para Cáceres, nesses 35 anos Adão já fez incontáveis shows em pousadas no pantanal, nos barco-hotéis ao longo do percurso do Rio Paraguai, em muitos festivais e eventos do estado, participou de diversos grupos, como o Meninos da Selva, Grupo Sem Fronteira, dentre outros, já participou de rodas musicais com Mato Grosso e Mathias, acompanhou vários cantores regionais e a lendária cantora Perla, a paraguaia erradicada no Brasil que eternizou a música Índia na língua portuguesa, um grande momento de renovação da música sertaneja do cancioneiro popular brasileiro.

O mestre Adãozinho da Harpa é uma lenda viva da Cultura de Mato Grosso é o nome mais expressivo ao se falar de música paraguaia

Henrique Maluf

Em 2010 ao lado do Sr. Armênio e do Sr. Emiliano, Adãozinho da Harpa funda Los Cancioneiros, um trio muito especial para a música de Mato Grosso, os dois cantam e tocam violão, cantando a duas vozes as canções do imaginário da música de fronteira. Tocam pelo estado todo, já se apresentaram em Rondônia e São Paulo. O trio gravou um primeiro álbum com um repertório de músicas latino americanas, com as tradicionais Polkas Paraguaias, Chamamés e Guarânias, quase que totalmente em castelhano, com salva exceção da canção Chalana em português. O grupo está ativo até os dias de hoje e Adão tem um carinho muito grande pelo trio, diz que é seu repertório favorito.

No ano de 2016 Adãozinho é convidado para tocar com a extinta Orquestra do Estado de Mato Grosso no espetáculo “Sinfonia Nativa – Rio Paraguai” em quatro movimentos, do compositor cacerense Guapo. Um espetáculo de encher olhos, ouvidos e todos sentidos humanos, a sala do Cine Teatro Cuiabá estava lotada. Um programa de excelência que trazia compositores da nossa terra pra dentro da atmosfera erudita de uma orquestra, um importante elo da música tradicional pantaneira com a música erudita. Do espetáculo houve depois a gravação do CD em estúdio, aliás, Adãozinho tem uma larga experiência em gravações nos estúdios cuiabanos, conta orgulhoso que sempre é convidado para gravar.

O senhor Adão Cardozo recebeu da Câmara Municipal de Cáceres o Título de Cidadão Cacerense em 01 de outubro de 2014 pela contribuição que ele trouxe e traz para a cidade, um ilustre cidadão da Princesinha do Rio Paraguai.

O mestre Adãozinho da Harpa é uma lenda viva da Cultura de Mato Grosso é o nome mais expressivo ao se falar de música paraguaia/de fronteira em nosso estado, ele é o responsável pela manutenção, fortalecimento e salvaguarda dessa memória viva que é a cultura platina – a grande responsável pelos surgimentos de gêneros musicais como o Rasqueado Cuiabano, o Chamamé Pantaneiro e o Rasqueado de Fronteira.

Henrique Maluf é formado em Música pela UFMT, produtor cultural, pesquisador de cultura regional e arte educador. Escreve nesta coluna com exclusividade às terças. E-mail: herojama@gmail.com

Fonte: RDnews

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