À procura de um pai intelectual

“Toda biblioteca é autobiográfica.” A frase do ensaísta argentino Alberto Manguel foi escolhida como epígrafe para este livro bastante pessoal e igualmente iluminado e erudito de Miguel Sanches Neto.
É curioso pensar que, enquanto Manguel foi filho de um embaixador intelectual, Sanches Neto, órfão de pai analfabeto, acabou criado por um padrasto “pobre e extremamente apegado ao dinheiro, com o primário incompleto”, que não compreendia qualquer texto para além dos didáticos e de leitura obrigatória na escola.

Enquanto a biblioteca do primeiro certamente começou como herança, a do segundo precisou ser conquistada, muitas vezes de forma furtiva e obsessiva: “Tive que buscar a figura do pai em amigos e autores e fiz das afinidades culturais o caminho para esta família”.

A vida escolar de Miguel, na cidade de Peabiru, interior do Paraná, se deu durante a ditatura e numa instituição pública (um colégio agrícola) que, nas palavras do autor, tinha uma função muito mais conformadora do que formadora, ignorando por completo o desejo de voar mais alto nutrido por alguns estudantes. “Ela não desejava elevar culturalmente os alunos pobres, queria apenas dotá-los de habilidades manuais e informações básicas.”

No entanto, na sétima série, Sanches Neto passou a frequentar a sala de leitura da escola, e sua paixão pelos grandes nomes da literatura se tornou tamanha que ele acabou por arrancar de um livro uma folha com a imagem de Lima Barreto: “Minha namoradinha colecionava pôsteres de atores de novelas, eu também queria ter meus ídolos”.

Já vivendo em Curitiba e tendo transformado as livrarias em seus locais preferidos para passeios e peregrinações, Miguel cultivava o hábito, uma vez que vivia com a grana contada e eram tempos de inflação desenfreada, de esconder os livros que desejava comprar (e que vinham com etiquetas de preço) para que esses acabassem, meses depois, sendo desvalorizados economicamente.

De olho nas bibliotecas de figuras do universo literário que, como o próprio escritor nos conta, acabaram por formar a sua família letradamente abastada, foi que ele acabou por adquirir em um sebo muitos exemplares dedicados a Paulo Leminski, poeta de enorme importância em sua formação e que, no final da vida, decidira vender boa parte de seu tesouro.

Ainda sobre as lojas de livros usados, Miguel nos ensina: “a organização mata a alma do sebo”. Eu tomei essa frase particularmente como um tapa na minha face, pois jamais entendi a zona forçosamente despretensiosa desses ambientes.

Os textos sobre a relação de Sanches Neto com lápis, canetas e marcadores de livros são inferiores àqueles nos quais se dedica a narrar seu périplo pessoal (de criança nascida em uma família ignorante a romancista premiado e reitor em uma grande universidade) e seu amor obstinado e quase monotemático à literatura.

Também enriquecem a obra as inúmeras citações de histórias e frases de autores aclamados, como Dalton Trevisan, Mário de Andrade, Schopenhauer, Borges —talvez parentes próximos daqueles que podem ostentá-los em bibliotecas íntimas.

Ao final, o leitor dessas crônicas-enciclopédicas tão encantadoras ainda ganha uma excelente lista de títulos para ler e conservar antes de morrer —e, assim, poder deixar estantes recheadas de afeto e conhecimento para as próximas gerações.

Fonte: Uol – Cotidiano

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