A guerra contra a verdade chega ao clímax nos EUA

Comecei a escrever minha coluna para o The New York Times em 2000. Meu tema deveria supostamente ser economia e negócios. Mas não consegui deixar de perceber que um dos candidatos à presidência na eleição daquele ano fazia afirmações sistematicamente falsas sobre suas propostas de políticas públicas.

George W. Bush continuava a insistir em que seus cortes de impostos favoráveis ao 1% tinham por objetivo beneficiar a classe média, e seu plano de privatizar a Previdência Social era simplesmente um sonho de abandonar as obrigações do governo para com os cidadãos americanos mais velhos.

Na época, meus editores disseram que não era aceitável usar a palavra “mentira” com relação a candidatos à presidência.

Agora, porém, a maioria dos observadores informados decidiu enfim que é aceitável reportar o fato de que o presidente Donald Trump mente constantemente.

Muitas das mentiras são triviais, em muitos casos bizarramente triviais, como as afirmações repetidas de Trump de que recebeu um prêmio que nem mesmo existe. Mas o presidente encerrou sua campanha deste ano com duas grandes e perigosas mentiras —e há todo motivo para temer que esta semana ele virá a disparar uma terceira grande mentira, ainda mais perigosa do que as duas primeiras.

A primeira grande mentira é a de que os Estados Unidos estão sob a ameaça de hordas de “desordeiros, saqueadores, incendiários, ladrões de armas, queimadores de bandeiras, marxistas”.

Qualquer um que caminhe pelas “jurisdições anarquistas” de Nova York ou Seattle pode determinar com seus próprios olhos que nada desse tipo está acontecendo. E os dados confirmam o óbvio. Um estudo sistemático constatou que os protestos do movimento Black Lives Matter no trimestre passado foram pacíficos, em sua maioria esmagadora, e que “a maior parte da violência que ocorreu na verdade foi dirigida contra os manifestantes do BLM”.

Oh, e Trump continua a afirmar que Joe Biden se recusa a criticar os poucos casos de violência que de fato aconteceram – quando Biden fez exatamente isso.

Assim, Trump deseja que os americanos se sintam aterrorizados diante de uma ameaça que só existe em sua imaginação. Ao mesmo tempo, deseja que o país ignore a ameaça da Covid-19, que é muito real.

Nos últimos meses, Trump para todos os efeitos abandonou qualquer esforço de para limitar a difusão do coronavírus. Um estudo confiável, pela Universidade Stanford, estimou que os comícios de Trump, que envolvem grande número de pessoas, todas gritando e aglomeradas na proximidade das demais, quase todas sem máscara, causaram o contágio de cerca de 30 mil participantes, e 700 mortes.

Mas Trump deseja que os americanos acreditem que a pandemia —que matou mais cidadãos no mês passado do que o número típico de homicídios que acontece anualmente no país— é “fake news”.

Estamos “saindo da crise”, ele insiste, ainda que o número de contágios e de hospitalizações continue a crescer em ritmo terrível. A mídia noticiosa fala sem parar sobre “Covid, Covid, Covid” só porque deseja prejudicar o presidente. Os médicos inflacionam a contagem de mortos porque querem mais dinheiro.

Essas grandes mentiras são imensamente destrutivas, e não só porque conduzem a más políticas. Quer gostemos disso, quer não, a retórica do presidente afeta a maneira pela qual milhões de americanos se comportam.

As mentiras de Trump sobre a ameaça anarquista encorajou os defensores da supremacia branca, entre os quais terroristas locais. Seu desdém quanto à ameaça da pandemia, suas zombarias sobre medidas de precaução como o uso de máscaras, fizeram muito para ajudar o coronavírus a se espalhar.

Mas o pior pode estar por vir.

É possível —embora não muito provável— que Trump conquiste a reeleição legitimamente, ainda que isso requeira que as pesquisas de opinião pública estejam ainda mais erradas este ano do que estiveram em 2016. Caso isso não aconteça, porém, existe a quase certeza de que ele se recusará a aceitar a derrota em silêncio.

A menos que perca por maioria esmagadora, Trump já indicou que tentará roubar a eleição ao impedir a contagem de votos em favor de Biden, com a ajuda de juízes parciais. Não acredito que ele terá sucesso, mas preferiria ter certeza disso.

E o que acontece caso ele não consiga se manter no cargo? Todos nós sabemos o que provavelmente acontecerá a seguir: afirmações de que foi roubado. Trump vai afirmar que milhões de pessoas votaram ilegalmente — afinal, já o fez em 2016, para negar que tinha sido derrotado no voto popular. É provável que afirme também que milhões de votos em seu favor foram descartados, de alguma maneira —afinal, ele já vem acusando que cédulas foram “despejadas em rios”.

E encontrará uma audiência receptiva. Os analistas profissionais de pesquisas eleitorais consideram Biden como franco favorito já há muito tempo, mas de acordo com uma pesquisa Gallup no final de setembro, 90% dos republicanos antecipam que Trump vencerá. Caso perca, nossa direita, sempre adepta de teorias da conspiração, reagirá com choque e ira.

O resultado imediato bem pode ser uma onda de violência e destruição de propriedades —ou seja, partidários de Trump praticando o comportamento que atribuem falsamente aos manifestantes do Black Live Matters. Mas essa é a parte que na verdade me preocupa menos.

Não, o perigo realmente sério é que milhões de nossos cidadãos provavelmente aceitarão uma versão americana do mito da “punhalada nas costas” que ganhou ampla circulação na Alemanha depois da derrota do país na Primeira Guerra Mundial, com acusações de que os militares haviam sido traídos pelo governo civil. E pode bem ser que esses eleitores terminem votando no próximo candidato presidencial do Partido Republicano.

The New York Times, tradução de Paulo Migliacci

Fonte: Folha de São Paulo

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